Na insónia das três oiço arranhar,

inseguranças bastardas que tentei camuflar.

Cruzam-se os medos, o fusco do luar,

da solidão surge, ainda que lenta,

o dia transformado em noite pardacenta.

O instinto como arma, não mata mas tenta

passar de presa a predador, de demónios caçador.

Das testas enrugadas, disparam memórias apagadas

dos ombros descaídos, ferozes anjos arrependidos

abocanham, agarram a réstia de sobrevivência,

a cabeça sempre caiu na armadilha da abstinência.

Por entre as veias já gatinha a crueldade mal gasta,

em suor e cansaço a minha sanidade se arrasta.

Rendo a felicidade, a minha paz ao vento,

nos ouvidos resta o bater de um coração violento.

Voltam os sentimentos felinos, revejo-os atrás dos cardos,

nem as memórias de infância já servem de dardos.

Deixo esvair lentamente a minha humanidade,

sem conseguir adormecer começo a perceber,

à noite, todos os gatos são pardos.