Canalizações

Uma das grandes vantagens de ser escritora é saber sempre como procurar o que sentimos. Algo que se revela necessário no processo da escrita. Metermos as mãos dentro de nós e retirarmos para o papel, aquilo que não nos deixa viver, para que na arte viva.

Como se todas as emoções rolassem em canalizações. As minhas andam sempre rotas. E eu não sou canalizadora. Mas quando algo pinga em coração duro, tanto bate até que fura. E lá tenho de procurar a torneira certa a fechar. Questiono. E quase sem me aperceber lá desaperto memórias ainda frouxas, mesmo que o tempo já se tenha encarregado das enferrujar. Entupidas estas duas torneiras que dizem espelhar a alma, nunca ficam. Palpo cano a cano. Para descobrir qual desagua a mágoa desta vez. Mas eles estão todos ligados, e eu perco-me. Deixo-me perder a contar buraquinhos e goteiras, mexendo-lhes, ampliando-os. E só depois, remendando-os. E mais não há dedos para tanto furo. Mas eu não sou canalizadora. E não tarda eles voltam a rebentar. A gotejar, a chatear. Água mole em pedra dura. Felizmente, a infelicidade e a falta de jeito são as ferramentas perfeitas para uma escritora. Que inundação se daria, se me soubesse amanhar.

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