Números

É naqueles dias em que o sol não se esconde, e me afaga o rosto que me vejo a perguntar porque não gosto de números. Dias raros, esses, em que não sou eu própria a esconder-me da controversa questão, ‘Como é viver no estrangeiro?’. De início, revela-se fácil responder com um ‘é ter tudo em duplicado’. Duas casas, duas escovas de dentes, dois grupos de amigos, duas famílias, duas línguas. Nas conversas enleiam-se os de cá e os de lá, e nas duas línguas vão tropeçando o país de sangue e o do coração… Difícil é explicar que se alberga o dobro das saudades, que se carregam malas com o dobro do bacalhau, sabendo que não sobra até ao Natal; que o que nos falta do país onde não estamos no momento sobra em duas ou três palavras perdidas da sua ‘mother language’. Difícil é explicar, e aceitar, que só podemos ser metade de cada vez. E assim me sirvo dos números sabendo que só os 110 mil que com eles vivem conseguem realmente entender.

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