Crónicas de uma Viajante I

Sempre me senti injustiçada por nunca ter tido a sorte de ver uma estrela cadente. A minha esperança era tão desmedida que, por vezes confundia-as com meros aviões. E quando já nem a esperança me restava, perguntava-me se seria possível ver as estrelas uns metros mais perto, da janela de um avião.

Era hoje. Tinha me deitado a pensar que teria de acordar para me ir deitar noutro país. Acordara às 8:31h pela voz do meu despertador e entre todas as mensagens de boa viagem, estava a que me informava do cancelamento do meu voo. Sim, aquele que por muitas razões não queria apanhar.

Pela casa, uma irmã ria e repetia “Deus ouviu-me”. Despedimo-nos por isso como se nos fossemos ver daí a umas horas. Ela assim convencida e eu assim me tentava enganar. os maiores sabiam que era uma mera ilusão. “Adiar o inevitável”, como disse a Mãe. Um simples telefonema tirou-nos as dúvidas. Tinha sido colocada no voo das 16h. Tudo voltou. Desta vez ficaria fora três meses. Já lhe tinha perdido o hábito. O nevoeiro Lisboeta era a principal razão dos cancelamentos aéreos. 98% de humidade revelava a aplicação, enquanto atravessávamos a Ponte Vasco da Gama. Desta vez a mãe não graceja com o nome, ‘debaixo da cama’. A vista da cidade de Lisboa, que sempre me alimentou o suficiente para aguentar a saudade, era então mais uma lenda de D. Sebastião. Mesmo assim tentávamos ao máximo lembrar-nos de coisas para rir, tentando esquecer a razão pela qual estávamos ali. Só choramos dois minutos antes. Admito em voz alta que não sei como irei aguentar. E promessas de visitas e a mala do portátil são as únicas coisas que levo em mãos.

Chegada à porta de embarque 44A somos informados de um atraso de mais de meia hora e convidados a sentar. Somos muitos, é o maior avião em que já voei. No entretanto não sei se passa meia hora, mas sei que passa a correr. Talvez por ainda querer ficar.

Dois autocarros levam-nos vagarosamente até ao avião. A lotação é de 80+14. Os meus olhos, que ansiosamente procuram o estádio do Sporting como referência, aterram numa rapariga que foge dos policias na pista. Penso que muitos saberão disto pelo telejornal. Na viagem fala-se de terrorismo, acidentes com aeronaves e usa-se a palavra proibida. Há quem não ache piada, há quem se ria das desgraças. Enquanto todos esperam ver um avião substancialmente maior. ‘Só tem mais barriga’ uma voz masculina comenta.’De cerveja’ outra acrescenta.

Apesar de sermos mais, ninguém demora muito a instalar-se. Todos temos pressa, cada um com a sua. O piloto informa-nos que só temos autorização para descolar depois das 17.02h. Depois de dois ou três dedos de conversa, o senhor ao meu lado pergunta-me as horas, no preciso minuto em começamos a ganhar velocidade. “Home” de Gabrielle Aplin enche-me os pulmões do último pedacinho de ar português. E na seguinte curta-metragem Lisboeta antes mesmo de atravessarmos o nevoeiro, as palavras “I will always keep you with me/ You’ll be always on my mind/ But there’s a shining in the shadows/I’ll never know unless I’ll try” acalmam-me. E quase que acredito que falam de mim.

É a meio do voo que o meu companheiro do lado chama a minha atenção para a Lua na noite cerrada. Está alaranjada e não sei se é da falta de visão, do cansaço ou das lágrimas anteriores mas parece-me turva, quase que em pixeis. De um lado do avião é noite, do outro dia. E penso em como ando sempre no meio. Em cada país. Em cada mood. Em cada vida.

Estão -53ºC a muitos metros de altitude. Neva lentamente em Londres. Desligo o computador e encosto a testa ao vidro gelado da janela. Sei que o meu sonho e as pessoas que tenho nos dois lados podem ser as únicas razões pelas quais me encosto e solto as lágrimas, mas hoje as minhas dúvidas dissipam-se. Cá em cima ainda se vêem as estrelas.

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