Direções

Hoje apercebi-me que os poucos seguidores do Volta’s sabem tanto sobre mim como qualquer estranho que me peça direções em plena rua de Londres.
E é perante os acontecimentos noticiados que ultimamente me tenho perguntado se estava mesmo destinado. Eu, aqui, agora, a escrever. Ou seja eu, em Londres, neste momento a tirar um curso de Literatura com Escrita Criativa. Ou eu, na escola, no meu segundo ano, atenta à maneira como a bibliotecária cuidadosamente folheava e pegava no livro O Casamento da Gata. Ou até mesmo eu, no meu quarto, há sete anos, a escrever um texto sobre uma lágrima na vida de uma mulher. Talvez tenha sido o eu, na minha cama, há cinco anos, numa tarde de verão, a devorar o livro que me fez acreditar que era capaz de criar algo parecido. São incontáveis os ‘eu’s, os locais, os momentos, e as acções que me guiam os pensamentos nesta cidade.
Terá sido a memória sonora do virar das páginas pela bibliotecária e a minha tentativa de a conseguir imitar? O silêncio na biblioteca provisória após ter lido o meu texto em voz alta? Ou as inúmeras composições em Inglês que me davam a percepção de saber somar o que pensava e subtrair o que carregava? Ou estaria o meu destino nas mãos da inexistência de ‘ou’s e na presença omnisciente dos ‘e’s?
Nos últimos dois anos, muitas foram as pessoas que me paravam nas ruas para me perguntar o que realmente estudo. Seguida dos seus sorrisos de incompreensão vinha a pergunta: ‘E isso serve para quê?’. Até hoje são inexistentes os estranhos que me perguntaram o porquê da minha escolha. Quer por ser uma simples conversa de rua, quer por acreditarem que o meu curso para nada serve. E nestas alturas, muitos esquecem o poder que os livros têm. O da cura, o da revolta, o de conforto, o de viajar…. entre muitos outros. Nestas alturas muitos esquecem que são necessárias pessoas com o meu interesse para que essas mesmas palavras de conforto, revolta, cura existam. Para que os livros nos cheguem às mãos e nos continuem a direccionar.

E mesmo não sabendo onde está o meu eu, em certos momentos, sei que nos livros e nas palavras me poderei encontrar. Porque as direções são acima de tudo o que seguimos e não para que local devemos seguir.

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