A Verde & Branco

Escrevo pela manhã, como tantos faziam. E é após terminar a edição da Crónicas de uma Viajante III, onde falo das coincidências que regem as minhas viagens, que relembro uma outra. Porque em dia de Derby estava tudo a pensar no mesmo, cada um para seu lado, cada um pela sua cor.

É de conhecimento geral que nos arredores do aeroporto de Lisboa se encontra o estádio verde e branco. O que escapava ao meu conhecimento era a importância que este viria a ter nas minhas observações.

Cedo, e empurrada pela sorte, me apercebi de que teria uma vista melhor de Lisboa, se voasse de Londres, na ala ABC. Por coincidência aquele era também o único lado de onde o avistava.

Entusiasmavam-me os jogos da minha equipa, como qualquer adepto. Mas de futebol nada entendia. Tinha assistido a um jogo ao vivo pela primeira vez, apenas dois meses antes de partir. Conhecia os jogadores pelas cores da chuteiras, sabia talvez um, no máximo dois nomes. Distraia-me com as claques e a passagem dos aviões. Percebi porque nos fascina o futebol.

Existem agora três locais onde caio à terra e penso ‘estes momentos podem não voltar a acontecer, posso não voltar aqui’, um deles passou a ser o estádio do Sporting. Pela janela do avião tornou-se a última casa a que digo adeus, a primeira que me recebe em lágrimas.

Em poucos meses de Londrina passei a assistir a todos os jogos, a ter todas as músicas na memória. Durante 90 minutos nada mais interessava, senão aquele jogo em português. Não parecia mais que uma ilusão. Talvez por isso exista algo de mágico quando dou os primeiros passos no estádio sempre que lá volto. Talvez por isso quase chore quando nos juntamos para cantar ‘O mundo sabe que’.

São inúmeras as narrativas futebolísticas que se cosem às minhas viagens. Voltaria a Lisboa daí a 36 horas, ao acordar de madrugada para fazer o check-in engano-me nas contas e em vez de escolher a fila ABC, escolho a contrária. Lembro-me de conter as lágrimas perante as hospedeiras de bordo que me cumprimentavam. Quebrava-se uma rotina. O hábito que por mera sorte me tinha escolhido. Escolhera na mesma a fila 17. Quando levantamos voo olho para o meu tão desejado lugar, está vazio. Durante os 15 minutos antes de deixarmos território britânico, penso em pedir para me mudar. Sem saber a razão, nunca o fiz. É a meia hora de aterrar que a magia acontece, apercebo-me que algo não está certo. As minhas referências estão ao contrário. A cabeça descaída começa lentamente a levantar. Tento encontrar alguma ordem, algo familiar. É então que vejo a posição do Cristo Rei, a rota aérea foi trocada. Mesmo antes da desejada aterragem, ali estava o estádio.

No primeiro jogo com o Real Madrid lá estaria eu a voar para Londres. Ouvi apenas 15 minutos de jogo, sentada na porta de embarque. Pedi a tantos amigos que me mandassem o resultado para saber mal aterrasse… Nesse mesmo dia, levava o cachecol atado à mochila. Nessa manhã, soube que me faltava algo enquanto procurava com o olhar o que deveria levar. Os meus olhos mal lhe tocaram quando por palavras fui relembrada. Na segurança, onde ainda me apanham aos soluços por estar a partir, metem-se comigo. ‘Não a deveria deixar passar com este cachecol’. Solto uma gargalhada. Estava pronta a partir.

O cachecol permitiu que fosse identificada por um português que pernoitava no mesmo hostel que eu. O cachecol agora descansa na minha estante de livros. O único objecto que permito que destoe dos tons do quarto. O cachecol que destaca estes recortes de vida, a verde e branco.

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