A figura de pano preto

Certamente não deixa enganar

Anda de véu aos dezoito

Mas engana-se quem pensa que vai casar.

 

Ao passar os cães ladram

A vizinha vira o olhar

Ninguém vê o seu cabelo

Nem por sombras o seu pesar.

 

Da fama não se despe

Apenas o luto lhe parece assentar

O resto da sua vida

Não que alguém vá notar.

 

Anos passam entre as horas

De maior calor em que vai passear

Mas o tempo não lhe interessa

Pois essas horas não sabe contar.

 

(Sabe a poeta que a vê

Para o pôr-do-sol se encaminhar

Que quando o seu pano cair

Apenas o branco a poderá tapar).