Crónicas de uma Viajante IV

Os olhares são inevitáveis em qualquer viagem. São inúmeros e cruzados, por vezes até roubados mas representam o que de mais puro existe em nós. Sejam de curiosidade, vergonha, medo, aborrecimento, saudade ou felicidade. O dia começa com um deles. O que, ao abrir as janelas, fixo no ar. São quase cinco da madrugada e já é dia. Poucas são as nuvens que se deixam apanhar. Não esperam visitas antes do amanhecer. Parecem corar entre os cochichos das aves e o bocejo dos humanos. Enquanto engulo a torrada e o café sem apetite, tento manter-me calma ao reparar que pessoas já se arrastam pelas ruas, carros pelas estradas, o autocarro que apanharia pelo caminho até ao nosso ponto de encontro. Escrevo um post-it à pressa e fecho por fim a famosa mala rosa. Nas escadas de madeira que tanto rangem, acho os meus pés de veludo e quando fecho a porta num suspiro, dou corda aos sapatos.

O 45 já me esperava na paragem, não me dando tempo para procurar o Oyster. O autocarro entra em movimento antes mesmo de procurar um lugar para me sentar. Poucas são as paragens até ao autocarro que me leva ao aeroporto. Um senhor ainda com vestígios de festa em si, tenta convencer-nos a cantar. Há quem o ignore, quem o mande calar. Quem simplesmente o olhe e troque de lugar. Acaba por sair na paragem antes da minha.

Os quatorze graus que se assumem às seis da manhã, prometem uma temperatura agradável o resto do dia. Eu espero o segundo autocarro. Em meia hora o vento entra e saí pelas mangas largas do meu sobretudo. Os cabelos teimam em não me deixar o rosto. Dois rapazes pedem-me direções. E nestes 30 minutos vale-me o olhar como entretenimento. Os pombos voam por cima das armadilhas humanas. Um senhor passa naquele que é o maior skate que já alguma vez vi. A tudo isto penso tirar fotografia, mas por preguiça ou timidez nunca o faço.

Quando me vejo de novo sentada, encosto a cabeça ao vidro da janela. Entre os que dormem, vêem séries ou ouvem música sento-me eu. Com um livro no colo e uma curiosidade enorme perante os locais por onde passamos. Relembram-me a minha primeira viagem a Londres. A que me fez admitir nunca ser capaz de viver nesta cidade, mas que acabou por me fascinar ao ponto de me contrariar 5 anos depois. A beleza lá continua, o meu fascínio muitas vezes esquecido também. Penso em todas as vezes que me perguntei porque deixei Portugal. Em como não consegui focar-me no que esta cidade me ofereceu. Que ainda me tem para oferecer. As suas paisagens, as suas oportunidades, as suas livrarias, as suas culturas, as pessoas a quem por coincidência me acabou por juntar. O sono bate ao de leve. Mas teimo em não ceder. E não sei se é das primeiras horas da madrugada ou da torrada em seco ou do café que ainda não fez efeito, mas penso em como nada mudaria. Nem mesmo eu. O que me permite sorrir até ao final da viagem, sem ler uma única página do romance que me acompanha.

À chegada ao aeroporto, assusto-me com o número de pessoas na segurança. E por momentos acredito que não encontrarei tempo para o café com que vim a sonhar durante todo o caminho. Engano-me, em vinte minutos encontro-me sentada no banco mesmo em baixo dos ecrãs de informações. O meu café pousado, enquanto arrefece. Um casal português, para o qual tento não olhar, aproxima-se. “Um dia havemos de tirar uma semana de férias e escolher assim para onde vamos. Escolhe, escolhe agora.” ele diz. A companheira desvaloriza, continua a caminhar. Mas eu acredito que o fará. Conheço aquela força no olhar.

Mudo de lugar para finalmente começar a ler. Entre o passar das páginas o tempo voa e enquanto observo diretamente o que me rodeia, sigo para a porta de embarque. É das últimas, estando ainda mais perto das pistas e dos aviões. Conto duas aterragens e três descolagens enquanto ali esperamos pelas escadas para o avião. Vou à janela, como já se sabe ser habitual. E ao levantarmos voo, em ponto, algo me espera.

Vejo a sombra do avião nos campos verdes. Nada citadino. O sol entra pela janela diretamente para o meu rosto, nem as nuvens mais altas o conseguem esconder. A meio do voo reparo como as mais baixas se colam ao relevo das montanhas verdes, provavelmente francesas. E entre as paragens da música para ouvir o piloto falar, oiço uma criança chorar. Onde as nuvens se formam, onde ideias se juntam.

Na pausa da leitura, reparo nas asas. Consigo desvendar pegadas humanas entre o pó acinzentado. Tiro inúmeras fotos a pensar neste mesmo post. Penso em descansar a vista, mas não consigo parar de olhar. Em puro fascínio. Para como as nuvens se amontoam, rasgam e nos seguem. Para como o sol as rompe e aquece. A poucos minutos de aterrar, o piloto fala entusiasticamente sobre perfumes de verão. Quase os consigo cheirar. Mais uma vez todos tiramos os fones para ouvir. As primeiras três palavras apenas.

Lisboa aparece no horizonte. O entusiasmo estrangeiro contagia-nos e sorrimos. Atrás de mim comentam os telhados laranjas lisboetas, como são todos iguais. Riu para comigo, lembrando-me em como me atrevi a pensar o mesmo ao avistar os seus telhados castanhos durante a madrugada. Cheguei a tocar-lhes pelo vidro do autocarro.

À chegada, dois elementos da polícia esperam-nos. Vou no terceiro e último autocarro, apercebendo-me por isso bem mais tarde. Dentro do autocarro há quem se atreva a sentir mal, o calor que me queima através das calças pretas é mais do que estou habituada a aguentar.

É mesmo à saída que oiço os comentários sobre os que foram presos e os que eram procurados. Entre as pessoas que me acompanhavam no voo. Ninguém desconfiou. E a certeza só chegaria se aparecesse no telejornal mais tarde. Como chegou.

Fala-se no perfume. E curiosamente acabamos por comprar um nas poucas horas de passeio em Lisboa.

Sei que posso encostar-me ao vidro, enquanto deixo a capital para trás, e fechar os olhos. Não consigo. Na realidade, talvez a minha vontade de ver a vida seja tanta que não consiga fechar os olhos perante a vista que me apresentam. Na realidade, a minha escrita alimenta-se disto. A minha força encontra-se nesse gesto, o de não deixar fechar os olhos. Para que nada escape ao meu olhar.

 

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