Recordações de um festival

Era o meu primeiro. E assim ficaria marcado para a posterioridade. Soube desde cedo que viesse o que viesse, saíria surpreendida. E que bela surpresa… Começando com uma fantástica contadora de histórias que nunca esquecerei e crianças tão interessadas quanto inocentes.

Tinha previamente assinalado todas as salas com um felino. Acabei na da Pantera, onde um calor arrasador poderia complicar até a simples tarefa de pegar no lápis. Mas a excitação dos mais novos e as suas ideias não filtradas ultrapassaram qualquer barreira. Com exercícios simples e divertidos apeteceu-me voltar às suas idades. Afinal, era nessa mesma altura que tinha começado a escrever.

As suas mãos coladas, como que a rezar, no minuto de silêncio pelas vitimas dos incêndios. As suas percepções de como o atual presidente dos Estados Unidos pode destruir o Mundo, são tão surpreendes quanto encantadoras. Neles corre uma inspiração que já não conseguimos alcançar. Entre um Sun-rex, porque mora no sol e um presidente maquiavélico nascem histórias de amor e fraquezas humanas às quais é impossível não sorrir. Melhor que qualquer adulto, conseguem imaginar cenários de arrepiar a espinha. Juntam locais, pessoas e objectivos que nenhum autor ousaria colocar em papel. E acima de tudo são genuínos.

Sentei-me entre eles, fizemos os mesmos exercícios. Em todos eles, o meu ficava aquém. O que me sobrava em técnica, faltava em arriscar. E como a técnica falha quando não damos tudo o que temos para dar… Partilhar ideias, sem medos ou julgamentos. Todos queriam mostrar a sua criação e ajudar na dos outros.

Poderiam dali sair grandes escritores, mas acima de tudo sairão grandes pessoas que escrevem.

***

O final do primeiro dia já era positivo. Ao segundo, já tinha falado com a grande maioria dos autores e ilustradores. Todos eles com uma vontade enorme de me mostrar o seu mundo, aquele em que queria entrar. Depois de todas as palavras sábias que bebi dos artistas, estava prestes a fazê-lo numa atividade à minha medida, um discurso para finalizar o festival. Na altura, no entanto, parecia-me algo bem maior do que tinha para dar. Desci as escadas a custo, com dois pés esquerdos e cheios de bolhas de tanto correr de sala em sala. A essa hora já contava ter enchido 60 garrafas de água diferentes, 40 copos com ‘squash’. Sabia que estávamos atrasados e por isso pedi apenas 3 minutos da atenção que lentamente se esvaía da sala. Lembro-me das gargalhadas e dos sorrisos que ouvia enquanto falava. Antes de voltar ao meu canto na quarta fila, já recebia parabéns. E se ficam os elogios. ‘Terrific’, ‘wonderful communicator’, ‘amazing speech, just what should be said’, ‘when you said […] I was wow. That was it for me’. Também fica na memória a alegria e vontade daquelas crianças. Fica o que aprenderam. Fica o que aquela mãe que se levantou para me cumprimentar com emoção me revelou. Fica a auxiliar que depois disto quer voltar a estudar, para seguir o seu sonho: Escrita Criativa. Fica a razão pela qual escrevo neste momento e pela qual estou sempre a fazê-lo.

Quando os miúdos me pediram autógrafos, expliquei-lhes que não era uma autora, algo que a Mo, uma das escritoras, não aceitou. ‘Estes serão os primeiros!’ ela disse com uma certeza que não esquecerei. ‘Envia-nos um convite quando sair o teu livro. Queremos cópias assinadas!’ outra autora exclamou, depois de me contar um pouco da sua própria história e como a minha a inspirou. Uma outra pediu-me que soletra-se o meu nome, achando-o único demais para não ser oferecido a uma personagem sua.

Acabo este evento com vontade de mais, muito mais. Comentávamos entre escritores que o seu efeito é tão contagiante que todos temos vontade de correr para casa e escrever sem parar. E enquanto os meus dedos fogem entre teclas para que de nada me esqueça, dos nossos lábios partem ‘farewell’s, obrigadas e tanta sorte quanto aquela que conseguimos expressar. Por momentos temo não conseguir lembrar-me de tudo o que ouvi, de tudo o que aprendi.

Mas quanto a estes miúdos, que nos próximos meses certamente não irão parar de escrever… Quer façam parte da nossa geração, ou da próxima, deixam-me com a certeza de algo: eles não estão perdidos.

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