Os sete dias antes de embarcar costumam passar devagar. Tão devagar como quando estamos debaixo de água, a tentar atingir a superfície. Os setes dias antes de embarcar são os momentos de aflição. Aqueles segundos que não conseguimos contar. Aqueles milésimos que nos fazem pensar que quanto mais próximo da superfície estamos, menos tempo achamos conseguir aguentar.

É um mistério ainda por explicar como conseguimos mergulhar de cabeça antes de conhecermos o que está submerso. Um ainda maior como voltamos a mergulhar depois de vir ao de cima respirar.

Nas aulas de Escrita Criativa chamamos a este fenómeno ‘A Jornada do Herói’, que se encontra dividida em três fases. Numa primeira este transita a fundo para um novo mundo. Desconhecido, perigoso, longínquo. E toda a segunda fase permanece submersa nesse ambiente e nas suas dificuldades, na sua adaptação, no alcance do seu objetivo. Mas no terceiro e último patamar, ele volta sempre ao mundo inicial. E por lá permanece com novos conhecimentos e uma perspectiva diferente. Esse é o final pelo qual sustemos a respiração. Chegar ao local que anteriormente deixámos para o ajudar a respirar novas ideias, novos projetos. Mesmo que para isso tenhamos que resistir às ninfas, às correntes do humor, às alterações de temperatura. Mesmo que por isso tenhamos de nos habituar aos sons alterados e esganiçados, à falta de luz no fundo, à pele pálida e enrugada, à falta do grosso sal.

Apesar das inúmeras dimensões que a vida pode tomar, ‘A Jornada do Herói’ será sempre uma delas. E é por isto que as histórias que os livros nos contam podem parecer tão reais. Porque efectivamente o são, se nos permitirmos molhar.