Os olhos de quem vai

Nos últimos dois anos, por esta altura, vejo a célebre incerteza no rosto dos que decidem partir. Aquela que a toda à força tentamos mascarar. Estamos a uma viagem de avião da mudança. E ao contrário do que se possa pensar, todos vamos sozinhos e assustados. Da solidão amedrontados.

Os desafios começam cedo e nos dedos não cabem o que temos a perder. Mas na nossa mente vive uma força fusca que acredita ser incontável o que temos a ganhar. Entre a primeira viagem de ida e o primeiro ‘voltei’ os dias não voam, o humor não se fixa e as ilusões, ainda que pequenas, começam a ser questionadas.

Nada é preto no branco. Tudo se combina com o céu londrino e o seu tempo incerto. Estamos no centro do mundo e apesar de crescermos à força, sentimo-nos pequenos perante tanta confusão. Ainda assim, acreditamos. E vamos continuando a acreditar que um dia poderemos voltar. Que a distância vai compensar.

Os olhos de quem vai não são iguais aos de quem fica. Não albergam lágrimas. Neles não peregrina a saudade, mas levam consigo todas as outras emoções. A de pertencer, sem pertencer. A de não nos sentirmos em casa em nenhum lugar. O sentimento familiar, no desconhecido.

Como bons portugueses, temos em nós todos os sonhos do mundo e é por isso que os conseguimos conquistar. E por essa razão, os olhos de quem vai não refletem os de quem volta.

 

 

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3 thoughts on “Os olhos de quem vai

  1. Muita verdade,os olhos de quem fica ,permanecem molhados com saudade de quem parte. Com orgulho imenso !mas com uma saudade do tamanho do universo!

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