Crónicas de uma Viajante VI

Rodava devagar. Como lhe tinha ensinado na noite anterior, e a pequena caixa de música suavemente libertava o hino da alegria pela manhã. Acabara de fechar a típica mala portuguesa cheia de bacalhau seco, o chocolate que me pediram e alguma roupa mais leve. O caminho para Lisboa é alegre e cheio de conversa, pois repetirar-se-à daí a um mês. Entre as gargalhadas soltas, a Mãe relembra-me da altura em que desejava ser pintora ou bióloga marinha. De me ter dito que teria de estudar noutra cidade que não a minha. Relembra-me ainda que disse que não iria sem os meus pais. A testa franze como no dia em que decidi que não o seria. Algo mais alto se alevantava. Além fronteiras, além mar.

À pressa, engolimos o último pastel de nata e fugimos para o terminal vizinho. Há tempo para desejar boa sorte na vida a um outro bejense que num outro avião se irá estrear por terras britânicas. Na segurança, reencontro o senhor que se meteu com o meu cachecol no dia do Real Madrid-Sporting. E sorrio perante a coincidência, perante a familiaridade. Já não é a primeira vez que acontece. Certamente não será a última.

A minha tranquilidade acaba momentos depois. A máquina das águas fica-me com a moeda. O terminal está cheio, nem um lugar vazio. Somos avisados de um atraso, as malas estão a ir para o porão. E perdida perante tamanha confusão, reparo em como todas as pessoas me acham inglesa. Talvez por desta vez não sorrir.

Voo sempre com grande ansiedade. Quero sempre chegar. Hoje vou para Londres de forma diferente. Com uma ânsia acrescida. Com o medo de que algo tenha mudado devido aos mais recentes acontecimentos. E no longo percurso do terminal ao avião, despeço-me do sol. Guardo os óculos ao sentar e mentalizo-me que nos próximos tempos não os voltarei a usar.

Sinto que durmo durante grande parte do voo. Olhando momentaneamente pela janela. Distingo uma linha negra no mar. Pergunto-me até que ponto poderá ser a nossa poluição. Depois identifico a sombra do avião a guiá-la. A sombra do nosso rasto. Penso na expressão. Em como poderia carregar melancolia. Mas eu não a sentia.

E coincidência ou familiaridade, o Hino da alegria pela manhã não passava de um presságio da primeira viagem sem lágrimas.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s