Para Sylvia Plath

Reunimo-nos para celebrar Sylvia Plath. E havia perguntas dentro de mim que procuravam ser respondidas. Não porque não lhes achasse resposta, mas porque pareciam demasiado vagas perante a imensidão de tamanho alento. O que tem a sociedade do século XXI a aprender com Sylvia Plath? O que pode ter tanto para dizer a mulher de um dos poetas mais famosos e acarinhados do Reino Unido? Que impacto podem ter os pensamentos de uma artista tantos anos depois?

Minutos antes do começo, reflito. Começámos este festival a homenagear o poeta que o criou há precisamente 50 anos. Encerramos o mesmo com uma homenagem a uma outra poeta. Há poeta que já era Mulher, antes de ser mulher de Hughes. Há menina de 7 anos que escreveu uma carta com cores ao pai. Há jovem que detestava o tempo, a comida e os homens ingleses. Há depressão que encontrou em si, e que partilha com a humanidade.

Fui das primeiras a entrar na sala. Com os que estavam prestes a chegar partilhava a silenciosa frustração da palestra ser tão longa. E, mais tarde, de ser tão curta. É de arrepiar, ver uma sala encher com homens e mulheres de todas as idades e estilos. A mesma sala que não se encheu para a maior celebração de poesia mundial, completou-se pelo trabalho de uma só poeta. A Americana adotada, e largamente admirada, do Reino Unido.

É a filha destes dois poetas quem começa o evento. E não consigo disfarçar a sensação de estar num velório, ou até mesmo num funeral. Os convidados e oradores expandem-se no preto. As emoções trespassam as palavras cuidadosamente escolhidas para a ocasião. Existe um pesar comum na sala. Um sentimento individualista e impossível de explicar a não ser pela leitura de Plath. Quando Frida entra em palco, a surpresa é geral. Entre o que deveria ser dito, e previamente escrito, existem correções pessoais. Cumprindo o seu papel de filha, Frida defende o seu pai das recentes polémicas reveladas nas cartas de sua mãe. Os seus olhos ainda brilham de angústia e orgulho, quando nos revela que acredita convictamente que os seus pais, pelo seu talento e trabalho, estarão eternamente casados até mesmo após as suas mortes. Com ela, todos acreditamos e quase suspiramos ‘amém’. Assim, todos os que vieram movidos pela carreira de Plath, mas mais ainda pelos mais recentes factos, silenciaram a sua curiosidade por respeito aos que prolongam a mortalidade destes dois poetas. Numa noite em que os dois passaram de figuras míticas a comuns imortais.

É fácil, tão fácil, encontrarmo-nos nas palavras de Plath. A mulher que encontra uma palavra sempre que respira, um verso para cada suspiro seu. A poeta que estende em papel de carta o que a alma tenta esconder da mente, o que corta a respiração pela vida. E perante a frontalidade com que aborda a monstruosidade natural, Plath expõe o que temos em comum e sentimos ser só nosso. E é assim que a nós, leitores, ‘our loving Sivvy’ nos tira o fôlego.

Terminamos com uma gravação da própria a ler um dos seus mais famosos poemas, Spinster. E apesar das gargalhadas, o pesar ainda murmura. Para muitos uma vida inteira não é suficiente. Para Sylvia Plath, 30 continuam a sobrar.

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