Na folha de papel

Arranquei a folha de cor amanteigada do típico caderno de capa preta. E desatei a escrever. Procurei as palavras que por vezes esquecia e cujo o significado me deixava a pensar. A duvidar. A caneta era a mais requintada que encontrara. Precisava de ter tudo neste papel. Para lhes poder tocar, traçar com a ponta dos meus dedos. Tirá-las do mundo digital. Torná-las reais. Para que nelas pudesse acreditar. Para que a sorte soubesse onde as encontrar. Durante noites inteiras perdi sono propositadamente só para escolher um lugar. Que fosse especial. E escondido. Para que mais ninguém as pudesse ler, até mesmo pegar. Já tinha, outrora, feito o mesmo. Até hoje não me lembro onde essa carta possa estar. Ainda choro a pensar. Tenho medo. Que aconteça outra vez. Que eu me esqueça. Que o dia-a-dia não as venha buscar. Mas arrisco na mesma. Ficam bem pertinho de mim. Em algo que nunca passo de mão em mão. Encostadas à página que torna o que é real, menos real. Que desafia o significado. Que insiste em mudar sempre que as leio. Que continua a testar, em vez de provar. Troco a caneta por grafite. Para relembrar que nada é eterno. Nem mesmo em papel. E agora, mesmo impressas na minha caligrafia, estas continuam a questionar “Não é bonito pensar que sim?”.

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