Crónicas de uma Viajante VII

Nunca pensei muito no que me leva a escrever estas crónicas. Hoje podia simplesmente ser por preguiça. Por alguma razão não me apetece explorar Shakespeare, ponderar e argumentar. Sobre o que pensava. O que escreveu. Quero só aproveitar este sol que me queima os braços até que ele exista. Mas talvez eu precise disso, tal como ele. De assentar. Aterrar. Para explorar os temas da emigração atual. Da minha escolha. Das minhas casas. Da sua existência e inexistência. Das suas consequências. Da minha própria presença no mundo. Há dias em que olhamos para trás. O dia da viagem é sempre um deles.

São quase 3000km e hoje volta a apetecer-me escrever sobre eles. Sobre a nossa receção de braços em baixos em Londres. Sobre os sorrisos simpatéticos para com um inglês que não é perfeito. Hoje dão 8ºC de máxima. De manhã, em Portugal o sol chega aos 16ºC. Levamos comida nas malas e nos lábios o mantra “é so um mês”.
Penso se devo escrever sobre aquele segredo que tão bem sabemos guardar e que já tantas vezes quebrei o pacto e tentei revelar. Vontade não falta. Mas ainda não será hoje.

De chegada ao terminal, uma senhora italiana simpatiza comigo. Vejo-a perdida num aeroporto que já conheço tão bem. Não sabe para onde virar. Talvez por isso se vire para mim. Ao pensar que sou italiana, relembra-me porque estudo línguas e linguagens. Percebo o seu italiano, ela o meu português. Às vezes tenho de dar uso ao inglês para que me entenda. Sorri quando lhe digo que vou para Londres. Com gestos explica que será o seu próximo destino, que deve ser um sonho. Para já volta a Itália. Mostra-me o seu bilhete. Estamos ambas atrasadas. Desatamos numa correria, entre as amostras de perfume e as garrafas de bebida. Ela segue-me as passadas e eu digo-lhe onde fica a sua porta de embarque. Agradece-me amistosamente. Por momentos, não penso em ficar. Não há tempo.

Chegada à porta de embarque, já me esperam no final da fila. A mala rosa já é conhecida por ir para o porão. Nas mensagens de ‘boa viagem’ e nas obrigatórios chamadas de ‘quando embarcares…’ vem sempre a pergunta, ‘Então e a mala? Sempre foi para o porão’. Já deixou de ser algo que simplesmente consigo antecipar. Na minha cabeça, as frases que tenho a escrever vão se formando. Testando. Juntando. Paro, assim que me sento no avião.

Se há algo que me ensinaram faz hoje precisamente dois anos, é que quando se chora nunca se olha para trás. Nos dedos sinto o cheiro a jornal, que passaram ansiosamente pelas palavras de António Lobo Antunes. Na razão pela qual publica as suas crónicas. Eu penso na minha. Fecho os olhos e revejo os meus pais caminhar para a porta. A minha irmã de mãos dadas, entre os dois. Costas voltadas para mim. Levamos o mesmo nos olhos. Cada um para seu canto. Do mundo barulhento, no silêncio da mente. E por essa razão continuamos a entrar rapidamente no avião. E a encontrar razões para perder tempo nas crónicas que não consigo parar de editar.

 

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