Prometi a mim mesma que hoje não escreveria. Não havia tempo. Há uma proposta para preparar, um trabalho para entregar. Não podia passar de hoje. Mas até há meia-noite havia tempo e por isso sentei-me para escrever perante a vista nebulosa mas luminosa da Ponte Vasco da Gama.

O dia tinha começado cedo, o despertador tocou às cinco, o stress acordou às seis ao avistar as horas no autocarro. Sabia aquele caminho de cor. Não iria conseguir estar no local em 4 minutos. Com cada toque do botão vermelho do 45, e em cada paragem, aumentava o pânico. Mas chegada ao destino lá estavam mais dois estrangeiros, certamente a pensar o mesmo que eu, ‘não sou o único’.

A entrada no autocarro também não é fácil. Pela primeira vez encontra-se cheio. Nem um par de bancos vazio. Lá mesmo ao fundo, avisto um. No centro do corredor e das atenções das luzes. Dirijo-me rapidamente, quase sem olhar para a pessoa com quem irei partilhar as próximas horas. E é quando me estou prestes a sentar que reconheço quem desvia a mala para o vagar. Somos embaixadoras e estrangeiras na mesma universidade. Começámos a mesma aventura no mesmo dia, com a mesma falta de experiência, uma faixa laranja a combinar e o mesmo receio no olhar. Pergunto-lhe ‘que fazes aqui?!’, sem pensar, ‘vais para casa?’. Diz-me que não. Vai para Lisboa e mais uma vez penso, ‘não sou a única’. Fico genuinamente feliz, por ela. Por finalmente conhecer o sítio de que passo a vida a falar. Sobre o qual não me consigo calar. Tem voo às nove, o mesmo que o meu. Mas no avião não vamos na mesma fila e eu agradeço, ‘preciso de acabar o trabalho’. Naquele momento, já com o aeroporto em vista, só precisamos de um café.

Comentamos a segurança. A minha sorte, o azar dela. E tudo se desenrola assim, como prevemos aos tropeções na fila, como já nos habituámos. Rimos no fim. Ela a atar os cordões, eu a gabar-me do rímel. Já na mesa do café abrimos mapas e aplicações, partilhamos locais e informações. Londres não é para sempre. E ela também não quer lá permanecer. Desta vez digo em alto, ‘não sou a única’. Veio conhecer Lisboa, ‘quem sabe… se gostar…’, (e confessa-me mais tarde, poucas horas após aterrar, que em tantas cidades, esta é a sua favorita).

Entramos cedo no avião, mas não temos autorização para partir. E no entretanto, vou reconhecendo as caras de alguns hospedeiros de bordo. Alguns já lhes conheço o nome e eles o meu lugar. Sorrio perante a familiaridade. Abro o computador, a proposta é sobre o local a que chamamos casa e em como este pode diferir de onde nascemos, crescemos e vivemos. Escrevo sobre como em cidades multiculturais como Londres as culturas são híbridas. Mas entre bocejos olho pela janela, procuro distrações. Já lá no alto pouco se vê. As nuvens cobrem quase toda a nossa rota. E eu escrevo sobre elas, as rotas, em como nos mudam através do tempo. Como a percepção de um local, muda consoante esse tempo que não domamos e a nossa própria percepção. E em como casa deixa de ser um só lugar.

Chego à conclusão que escrevo sobre o que vivo enquanto viajo. Porque para nós, hoje não faz frio. Entre os casacos de inverno, destacam-se os nossos braços a balançar de alegria. A comer a salada para fugir do vapor quente da sopa. A rir à chuva e a desdenhar a neve que tão cedo voltará a Londres.

Relembro a nossa aterragem, é o Comandante que me faz sorrir com as suas primeiras palavras em Português, ‘não passem por baixo da asa, dá azar. Sejam bem-vindos a casa’. E pela primeira vez escrevo o que sei sobre o significado da palavra ‘casa’ e que esta em que aterro, não é única.