Tudo o que é imprevisível causa stress e esta foi, sem dúvida, a viagem mais imprevisível de todas. A preocupação havia chegado no dia anterior. A hora mudava na madrugada do 25, era me pedido para confiar na tecnologia. “Os telemóveis mudam sozinhos!”, todos me diziam. E como sempre, eu confiei. Neles, que me acalmam. Mas ao acordar, não conseguia descansar sem ter de confirmar em todos os relógios manuais possíveis que tudo estava a bater certo. Apesar de estar confusa, decidi ‘pensar positivo’, como o Pai tanto diz.

Ao contrário do que havia acontecido na semana anterior, saía de casa com tempo. As ruas permaneciam sossegadas no seu silêncio, faltavam-lhe pessoas. O autocarro não tardou a chegar e tudo parecia abonar a meu favor ao encontrar um lugar para me sentar. No entanto, quando saio do primeiro autocarro, existe sempre uma pressa. No passeio estreito, zigue-zago a mala rosa e ao longe vejo duas silhuetas no local para onde me dirijo. Chegada à paragem do autocarro que me levaria para o aeroporto, quero mandar mensagem à Mãe, ‘Vês? Estão mais pessoas na paragem, é seguro’. Mas é cedo, faltam poucos minutos para as oito. E eu não quero acordar ninguém.

Os minutos continuam a passar, sem pressa. Está muito frio, e não consigo não pensar nas luvas esquecidas na outra mala. Ou no sol que estará em Portugal. E por saber que faltam poucas horas, sorrio. Nesse preciso momento sou alertada para o facto de não haver autocarros a passar. E talvez por isso a preocupação comece a ocupar lugar. Uma das silhuetas caminha. Para perto do semáforo. Para onde possa ver o autocarro que não chega, nem chegará. Telefono para a linha de apoio. É dia da meia maratona em Londres. E há falta de autocarros e estradas abertas, muitos são obrigados a correr. Lembro-me da corrida que descrevi na ponte de Blackfriars às cinco da manhã. Desta vez uso o outro lado da ponte, de fugida para o primeiro sinal de Underground que encontrar. Ligo de imediato a quem me pode ajudar, e começo assim a acordar todas as pessoas que melhor me conhecem. Antes das nove já me escrevem ‘Vá, tem calma’, ‘ainda tens tempo, mas percebo se quiseres chorar’. Olho para o emaranhado de linhas do mapa de metro Londrino. Blackfriars serve as linhas verde e amarela. Tudo parece fácil. Basta ir de metro até Liverpool Street e apanhar um comboio direto para o aeroporto. Não olho para o tempo, de momento temo-o. Escondo a mim mesma a possibilidade de perder o voo, não é uma opção. Mas chegada à plataforma, as colunas informam a uma estação vazia que apenas a linha verde está a funcionar, não há metro direto para onde tanto preciso de ir. ‘Saio na anterior, caminho até à próxima’, penso rapidamente.

Mas é á saída da estação que percebo, não sei por onde ir. Não consigo ver os nomes das ruas, e nem sei quais seguir. No caminho inteiro só encontro um mapa e é por esse que me guio. As ruas permanecem fechadas e Londres parece uma cidade fantasma. Não encontro ninguém que me possa orientar. Perco-me durante meia hora. E encontro a estação completamente ao acaso. Assim que chego não quero acreditar. O local é desde já mágico. À entrada tem uma estátua em bronze de crianças que parecem estar a cantar, mas em seu redor há dezenas de pessoas a pedir esmola. Corro para o andar debaixo, da plataforma 19 sai um às 9:17h. O relógio marca as 9:16h. Entro na carruagem já no bip da porta a fechar e mesmo ao meu lado direito tenho lugar. Envio mensagem a todos, vou a tempo de embarcar.

A viagem de comboio é deslumbrante. Encosto a cabeça ao vidro, a ouvir músicas de encantar e com o cansaço, mais parece que estou a sonhar. Passamos pelas árvores derrubadas sobre os lagos. Pelos patos que seguem as mães. Por casas com jardins de inverno e estufas viradas para campos pintados e infindáveis. Passamos por campos de campismo e riachos com cascatas. Barcos-casa, cisnes e pontes escondidas por amendoeiras e chorões. Quero fotografar e filmar todo o caminho, mas bem sei que o telemóvel não conseguirá captar. E estou cansada, mesmo quase a chegar.

A chegada ao aeroporto é stressante, já passa das dez. A viagem de avião nunca foi tão desejada, precisava de ir para casa. E precisava urgentemente de dormir. Pareceu-me no entanto rápida, com uma sesta pelo meio, o meu snack favorito mais para o fim, e 81 páginas de um livro que tanto queria ler. Fazemos a rota que menos gosto, e é enquanto sobrevoamos o esplendor de Lisboa que o vento nos apanha. Descemos tortos, quase aos tombos e não parece haver maneira de nos endireitarmos. As asas ajustam-se. Os motores ouvem-se a trabalhar. Há quem se agarre aos assentos, dê a mão ao desconhecido do lado ou expire com medo. Os bebés choram com as dores nos ouvidos. Eu, apenas temo a aterragem que parece nunca mais chegar.

As tão esperadas lágrimas chegam com o ‘Senhoras e senhores, bem-vindos a Lisboa’, mas nunca chegam a cair.