Vimos o amanhecer em Portugal, mais propriamente no Alentejo, mas na noite anterior é impossível não pensar em como iremos adormecer num outro país. Com o barulho dos aviões ao invés dos pássaros a cantar. Com a luminosidade a interromper um sono leve que levará a um acordar confuso e a um ‘Onde estou?’. Por enquanto, pela manhã, preocupo-me apenas com o possível atraso do avião, o colocar todos os líquidos no habitual saco transparente, a encomenda que ainda está para vir e o bilhete por imprimir. Por momentos vivemos no momento apenas. Como senão existissem duas candidaturas a mestrado e muitas dúvidas pendentes. Como se estas não fossem definir se esta será, ou não, a última viagem para Londres a suprimir as lágrimas que teimam em aparecer e contagiar os que me levam. 

A caminho da capital admiro o entardecer. Já no aeroporto, repito o atraso de voo que me parece iminente, mas nunca chega a acontecer, o desejo de que enviem a mala rosa para o porão e a certeza de que não irá por ser tamanho o jeito que me daria. Na esplanada, perto da saída do aeroporto de Lisboa, vê-se o Tejo. E entre cada dentada do warm pastel de nata passa alguém que nos habituámos a ver na televisão, e cai uma nódoa de recheio para a mão. De atores a ex-jogadores, à selecção contra à qual jogaremos ainda esta semana. Na segurança não há fila, mas há falhas. Mas rapidamente ziguezagueamos por entre as amostras de perfumes de marca e os chocolates de quilo. 

Não há muito para apreciar no Terminal 1, conheço-o bem. Mas há um sentimento agradável em voltar ao mesmo. Relembra-me a viagem a Paris, o meu primeiro cancelamento de voo e a primeira viagem que sozinha fiz. Ao meu lado dois gémeos com cerca de 5 anos perguntam à mãe, ‘como é andar de avião? Nós nunca andámos’. Quero responder que é maravilhoso, mas que por vezes também nos confronta com o medo. Não respondo, mas eles contam-me. Voam para Guiné Bissau e acompanham-me até à porta de embarque, para que os guie. Os nossos aviões encontram-se estacionados lado a lado, mas só o meu, quase que para me contrariar, parece partir a horas.

Ao levantar voo, um arco íris recai sobre Lisboa, como se esta fosse o meu pote de ouro. E começam por isso os raciocínios que me acompanham há já três meses. Cá em cima reina a incerteza.

Permanecemos em altitude cruzeiro, a mais de 11 mil metros. E voamos a 800km/h. Da janela oposta entra uma luminosidade que cega, da minha vejo apenas a banalidade com que véus em tons rosados se enrolam. De um lado, fim de dia, do outro, início da noite. E como já é hábito, deslizamos a meio. 

Aterramos ao anoitecer. Penso em como esta pode ser a última vez que vejo Londres assim. Com admiração. Na escuridão. Nesta condição. Penso no que escrevi numa das minhas primeiras crónicas. Em como nessa altura tinha a certeza da razão pela qual não conseguia admirar as estrelas no céu Londrino. Em como elas estavam todas ali mesmo, em terreno firme, embutidas nos prédios ao longo do rio Tamisa, nos faróis dos autocarros de dois andares, no redondo Olhar da cidade. Ali mesmo, à distância de uns meros mil e tantos metros. De uma só aterragem. E em como ali mesmo, terei concretizado inúmeros desejos. Mas relembro também todas as vezes que perdi tempo a contar os segundos entre os aviões, de todas as janelas, de todos os meus quartos em Londres. Em como estes são também as minhas estrelas, os desejos porque tanto procurava. 

Pela primeira vez, perante estas questões, encontro serenidade. Não sei se por ser a última, ou a primeira de um novo ciclo, sinto uma enorme felicidade em voltar a esta cidade. Aterro com todas as dúvidas dissolvidas, mas não as descarrego ao aterrar. Quem diria que este sentimento iria encontrar lugar. Quem diria que era necessária tanta coragem para voltar.