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Crónicas de uma Viajante X

Posted on June 6, 2018

Vimos o amanhecer em Portugal, mais propriamente no Alentejo, mas na noite anterior é impossível não pensar em como iremos adormecer num outro país. Com o barulho dos aviões ao invés dos pássaros a cantar. Com a luminosidade a interromper um sono leve que levará a um acordar confuso e a um ‘Onde estou?’. Por enquanto, pela manhã, preocupo-me apenas com o possível atraso do avião, o colocar todos os líquidos no habitual saco transparente, a encomenda que ainda está para vir e o bilhete por imprimir. Por momentos vivemos no momento apenas. Como senão existissem duas candidaturas a mestrado e muitas dúvidas pendentes. Como se estas não fossem definir se esta será, ou não, a última viagem para Londres a suprimir as lágrimas que teimam em aparecer e contagiar os que me levam. 

A caminho da capital admiro o entardecer. Já no aeroporto, repito o atraso de voo que me parece iminente, mas nunca chega a acontecer, o desejo de que enviem a mala rosa para o porão e a certeza de que não irá por ser tamanho o jeito que me daria. Na esplanada, perto da saída do aeroporto de Lisboa, vê-se o Tejo. E entre cada dentada do warm pastel de nata passa alguém que nos habituámos a ver na televisão, e cai uma nódoa de recheio para a mão. De atores a ex-jogadores, à selecção contra à qual jogaremos ainda esta semana. Na segurança não há fila, mas há falhas. Mas rapidamente ziguezagueamos por entre as amostras de perfumes de marca e os chocolates de quilo. 

Não há muito para apreciar no Terminal 1, conheço-o bem. Mas há um sentimento agradável em voltar ao mesmo. Relembra-me a viagem a Paris, o meu primeiro cancelamento de voo e a primeira viagem que sozinha fiz. Ao meu lado dois gémeos com cerca de 5 anos perguntam à mãe, ‘como é andar de avião? Nós nunca andámos’. Quero responder que é maravilhoso, mas que por vezes também nos confronta com o medo. Não respondo, mas eles contam-me. Voam para Guiné Bissau e acompanham-me até à porta de embarque, para que os guie. Os nossos aviões encontram-se estacionados lado a lado, mas só o meu, quase que para me contrariar, parece partir a horas.

Ao levantar voo, um arco íris recai sobre Lisboa, como se esta fosse o meu pote de ouro. E começam por isso os raciocínios que me acompanham há já três meses. Cá em cima reina a incerteza.

Permanecemos em altitude cruzeiro, a mais de 11 mil metros. E voamos a 800km/h. Da janela oposta entra uma luminosidade que cega, da minha vejo apenas a banalidade com que véus em tons rosados se enrolam. De um lado, fim de dia, do outro, início da noite. E como já é hábito, deslizamos a meio. 

Aterramos ao anoitecer. Penso em como esta pode ser a última vez que vejo Londres assim. Com admiração. Na escuridão. Nesta condição. Penso no que escrevi numa das minhas primeiras crónicas. Em como nessa altura tinha a certeza da razão pela qual não conseguia admirar as estrelas no céu Londrino. Em como elas estavam todas ali mesmo, em terreno firme, embutidas nos prédios ao longo do rio Tamisa, nos faróis dos autocarros de dois andares, no redondo Olhar da cidade. Ali mesmo, à distância de uns meros mil e tantos metros. De uma só aterragem. E em como ali mesmo, terei concretizado inúmeros desejos. Mas relembro também todas as vezes que perdi tempo a contar os segundos entre os aviões, de todas as janelas, de todos os meus quartos em Londres. Em como estes são também as minhas estrelas, os desejos porque tanto procurava. 

Pela primeira vez, perante estas questões, encontro serenidade. Não sei se por ser a última, ou a primeira de um novo ciclo, sinto uma enorme felicidade em voltar a esta cidade. Aterro com todas as dúvidas dissolvidas, mas não as descarrego ao aterrar. Quem diria que este sentimento iria encontrar lugar. Quem diria que era necessária tanta coragem para voltar.

Crónicas de uma Viajante IX

Posted on March 26, 2018

Tudo o que é imprevisível causa stress e esta foi, sem dúvida, a viagem mais imprevisível de todas. A preocupação havia chegado no dia anterior. A hora mudava na madrugada do 25, era me pedido para confiar na tecnologia. “Os telemóveis mudam sozinhos!”, todos me diziam. E como sempre, eu confiei. Neles, que me acalmam. Mas ao acordar, não conseguia descansar sem ter de confirmar em todos os relógios manuais possíveis que tudo estava a bater certo. Apesar de estar confusa, decidi ‘pensar positivo’, como o Pai tanto diz.

Ao contrário do que havia acontecido na semana anterior, saía de casa com tempo. As ruas permaneciam sossegadas no seu silêncio, faltavam-lhe pessoas. O autocarro não tardou a chegar e tudo parecia abonar a meu favor ao encontrar um lugar para me sentar. No entanto, quando saio do primeiro autocarro, existe sempre uma pressa. No passeio estreito, zigue-zago a mala rosa e ao longe vejo duas silhuetas no local para onde me dirijo. Chegada à paragem do autocarro que me levaria para o aeroporto, quero mandar mensagem à Mãe, ‘Vês? Estão mais pessoas na paragem, é seguro’. Mas é cedo, faltam poucos minutos para as oito. E eu não quero acordar ninguém.

Os minutos continuam a passar, sem pressa. Está muito frio, e não consigo não pensar nas luvas esquecidas na outra mala. Ou no sol que estará em Portugal. E por saber que faltam poucas horas, sorrio. Nesse preciso momento sou alertada para o facto de não haver autocarros a passar. E talvez por isso a preocupação comece a ocupar lugar. Uma das silhuetas caminha. Para perto do semáforo. Para onde possa ver o autocarro que não chega, nem chegará. Telefono para a linha de apoio. É dia da meia maratona em Londres. E há falta de autocarros e estradas abertas, muitos são obrigados a correr. Lembro-me da corrida que descrevi na ponte de Blackfriars às cinco da manhã. Desta vez uso o outro lado da ponte, de fugida para o primeiro sinal de Underground que encontrar. Ligo de imediato a quem me pode ajudar, e começo assim a acordar todas as pessoas que melhor me conhecem. Antes das nove já me escrevem ‘Vá, tem calma’, ‘ainda tens tempo, mas percebo se quiseres chorar’. Olho para o emaranhado de linhas do mapa de metro Londrino. Blackfriars serve as linhas verde e amarela. Tudo parece fácil. Basta ir de metro até Liverpool Street e apanhar um comboio direto para o aeroporto. Não olho para o tempo, de momento temo-o. Escondo a mim mesma a possibilidade de perder o voo, não é uma opção. Mas chegada à plataforma, as colunas informam a uma estação vazia que apenas a linha verde está a funcionar, não há metro direto para onde tanto preciso de ir. ‘Saio na anterior, caminho até à próxima’, penso rapidamente.

Mas é á saída da estação que percebo, não sei por onde ir. Não consigo ver os nomes das ruas, e nem sei quais seguir. No caminho inteiro só encontro um mapa e é por esse que me guio. As ruas permanecem fechadas e Londres parece uma cidade fantasma. Não encontro ninguém que me possa orientar. Perco-me durante meia hora. E encontro a estação completamente ao acaso. Assim que chego não quero acreditar. O local é desde já mágico. À entrada tem uma estátua em bronze de crianças que parecem estar a cantar, mas em seu redor há dezenas de pessoas a pedir esmola. Corro para o andar debaixo, da plataforma 19 sai um às 9:17h. O relógio marca as 9:16h. Entro na carruagem já no bip da porta a fechar e mesmo ao meu lado direito tenho lugar. Envio mensagem a todos, vou a tempo de embarcar.

A viagem de comboio é deslumbrante. Encosto a cabeça ao vidro, a ouvir músicas de encantar e com o cansaço, mais parece que estou a sonhar. Passamos pelas árvores derrubadas sobre os lagos. Pelos patos que seguem as mães. Por casas com jardins de inverno e estufas viradas para campos pintados e infindáveis. Passamos por campos de campismo e riachos com cascatas. Barcos-casa, cisnes e pontes escondidas por amendoeiras e chorões. Quero fotografar e filmar todo o caminho, mas bem sei que o telemóvel não conseguirá captar. E estou cansada, mesmo quase a chegar.

A chegada ao aeroporto é stressante, já passa das dez. A viagem de avião nunca foi tão desejada, precisava de ir para casa. E precisava urgentemente de dormir. Pareceu-me no entanto rápida, com uma sesta pelo meio, o meu snack favorito mais para o fim, e 81 páginas de um livro que tanto queria ler. Fazemos a rota que menos gosto, e é enquanto sobrevoamos o esplendor de Lisboa que o vento nos apanha. Descemos tortos, quase aos tombos e não parece haver maneira de nos endireitarmos. As asas ajustam-se. Os motores ouvem-se a trabalhar. Há quem se agarre aos assentos, dê a mão ao desconhecido do lado ou expire com medo. Os bebés choram com as dores nos ouvidos. Eu, apenas temo a aterragem que parece nunca mais chegar.

As tão esperadas lágrimas chegam com o ‘Senhoras e senhores, bem-vindos a Lisboa’, mas nunca chegam a cair.

Crónicas de uma Viajante VIII

Posted on March 16, 2018

Prometi a mim mesma que hoje não escreveria. Não havia tempo. Há uma proposta para preparar, um trabalho para entregar. Não podia passar de hoje. Mas até há meia-noite havia tempo e por isso sentei-me para escrever perante a vista nebulosa mas luminosa da Ponte Vasco da Gama.

O dia tinha começado cedo, o despertador tocou às cinco, o stress acordou às seis ao avistar as horas no autocarro. Sabia aquele caminho de cor. Não iria conseguir estar no local em 4 minutos. Com cada toque do botão vermelho do 45, e em cada paragem, aumentava o pânico. Mas chegada ao destino lá estavam mais dois estrangeiros, certamente a pensar o mesmo que eu, ‘não sou o único’.

A entrada no autocarro também não é fácil. Pela primeira vez encontra-se cheio. Nem um par de bancos vazio. Lá mesmo ao fundo, avisto um. No centro do corredor e das atenções das luzes. Dirijo-me rapidamente, quase sem olhar para a pessoa com quem irei partilhar as próximas horas. E é quando me estou prestes a sentar que reconheço quem desvia a mala para o vagar. Somos embaixadoras e estrangeiras na mesma universidade. Começámos a mesma aventura no mesmo dia, com a mesma falta de experiência, uma faixa laranja a combinar e o mesmo receio no olhar. Pergunto-lhe ‘que fazes aqui?!’, sem pensar, ‘vais para casa?’. Diz-me que não. Vai para Lisboa e mais uma vez penso, ‘não sou a única’. Fico genuinamente feliz, por ela. Por finalmente conhecer o sítio de que passo a vida a falar. Sobre o qual não me consigo calar. Tem voo às nove, o mesmo que o meu. Mas no avião não vamos na mesma fila e eu agradeço, ‘preciso de acabar o trabalho’. Naquele momento, já com o aeroporto em vista, só precisamos de um café.

Comentamos a segurança. A minha sorte, o azar dela. E tudo se desenrola assim, como prevemos aos tropeções na fila, como já nos habituámos. Rimos no fim. Ela a atar os cordões, eu a gabar-me do rímel. Já na mesa do café abrimos mapas e aplicações, partilhamos locais e informações. Londres não é para sempre. E ela também não quer lá permanecer. Desta vez digo em alto, ‘não sou a única’. Veio conhecer Lisboa, ‘quem sabe… se gostar…’, (e confessa-me mais tarde, poucas horas após aterrar, que em tantas cidades, esta é a sua favorita).

Entramos cedo no avião, mas não temos autorização para partir. E no entretanto, vou reconhecendo as caras de alguns hospedeiros de bordo. Alguns já lhes conheço o nome e eles o meu lugar. Sorrio perante a familiaridade. Abro o computador, a proposta é sobre o local a que chamamos casa e em como este pode diferir de onde nascemos, crescemos e vivemos. Escrevo sobre como em cidades multiculturais como Londres as culturas são híbridas. Mas entre bocejos olho pela janela, procuro distrações. Já lá no alto pouco se vê. As nuvens cobrem quase toda a nossa rota. E eu escrevo sobre elas, as rotas, em como nos mudam através do tempo. Como a percepção de um local, muda consoante esse tempo que não domamos e a nossa própria percepção. E em como casa deixa de ser um só lugar.

Chego à conclusão que escrevo sobre o que vivo enquanto viajo. Porque para nós, hoje não faz frio. Entre os casacos de inverno, destacam-se os nossos braços a balançar de alegria. A comer a salada para fugir do vapor quente da sopa. A rir à chuva e a desdenhar a neve que tão cedo voltará a Londres.

Relembro a nossa aterragem, é o Comandante que me faz sorrir com as suas primeiras palavras em Português, ‘não passem por baixo da asa, dá azar. Sejam bem-vindos a casa’. E pela primeira vez escrevo o que sei sobre o significado da palavra ‘casa’ e que esta em que aterro, não é única.

 

 

 

Crónicas de uma Viajante VII

Posted on November 22, 2017

Nunca pensei muito no que me leva a escrever estas crónicas. Hoje podia simplesmente ser por preguiça. Por alguma razão não me apetece explorar Shakespeare, ponderar e argumentar. Sobre o que pensava. O que escreveu. Quero só aproveitar este sol que me queima os braços até que ele exista. Mas talvez eu precise disso, tal como ele. De assentar. Aterrar. Para explorar os temas da emigração atual. Da minha escolha. Das minhas casas. Da sua existência e inexistência. Das suas consequências. Da minha própria presença no mundo. Há dias em que olhamos para trás. O dia da viagem é sempre um deles.

São quase 3000km e hoje volta a apetecer-me escrever sobre eles. Sobre a nossa receção de braços em baixos em Londres. Sobre os sorrisos simpatéticos para com um inglês que não é perfeito. Hoje dão 8ºC de máxima. De manhã, em Portugal o sol chega aos 16ºC. Levamos comida nas malas e nos lábios o mantra “é so um mês”.
Penso se devo escrever sobre aquele segredo que tão bem sabemos guardar e que já tantas vezes quebrei o pacto e tentei revelar. Vontade não falta. Mas ainda não será hoje.

De chegada ao terminal, uma senhora italiana simpatiza comigo. Vejo-a perdida num aeroporto que já conheço tão bem. Não sabe para onde virar. Talvez por isso se vire para mim. Ao pensar que sou italiana, relembra-me porque estudo línguas e linguagens. Percebo o seu italiano, ela o meu português. Às vezes tenho de dar uso ao inglês para que me entenda. Sorri quando lhe digo que vou para Londres. Com gestos explica que será o seu próximo destino, que deve ser um sonho. Para já volta a Itália. Mostra-me o seu bilhete. Estamos ambas atrasadas. Desatamos numa correria, entre as amostras de perfume e as garrafas de bebida. Ela segue-me as passadas e eu digo-lhe onde fica a sua porta de embarque. Agradece-me amistosamente. Por momentos, não penso em ficar. Não há tempo.

Chegada à porta de embarque, já me esperam no final da fila. A mala rosa já é conhecida por ir para o porão. Nas mensagens de ‘boa viagem’ e nas obrigatórios chamadas de ‘quando embarcares…’ vem sempre a pergunta, ‘Então e a mala? Sempre foi para o porão’. Já deixou de ser algo que simplesmente consigo antecipar. Na minha cabeça, as frases que tenho a escrever vão se formando. Testando. Juntando. Paro, assim que me sento no avião.

Se há algo que me ensinaram faz hoje precisamente dois anos, é que quando se chora nunca se olha para trás.

Nos dedos sinto o cheiro a jornal, que passaram ansiosamente pelas palavras de António Lobo Antunes. Na razão pela qual publica as suas crónicas. Eu penso na minha. Fecho os olhos e revejo os meus pais a caminhar para a porta. A minha irmã de mãos dadas, entre os dois. Costas voltadas para mim. Levamos o mesmo nos olhos. Cada um para seu canto. Do mundo barulhento, no silêncio da mente. E por essa razão continuamos a entrar rapidamente no avião. E a encontrar razões para perder tempo nas crónicas que não consigo parar de editar.

Crónicas de uma Viajante VI

Posted on October 12, 2017

Rodava devagar. Como lhe tinha ensinado na noite anterior, e a pequena caixa de música suavemente libertava o hino da alegria pela manhã. Acabara de fechar a típica mala portuguesa cheia de bacalhau seco, o chocolate que me pediram e alguma roupa mais leve. O caminho para Lisboa é alegre e cheio de conversa, pois repetirar-se-à daí a um mês. Entre as gargalhadas soltas, a Mãe relembra-me da altura em que desejava ser pintora ou bióloga marinha. De me ter dito que teria de estudar noutra cidade que não a minha. Relembra-me ainda que disse que não iria sem os meus pais. A testa franze como no dia em que decidi que não o seria. Algo mais alto se alevantava. Além fronteiras, além mar.

À pressa, engolimos o último pastel de nata e fugimos para o terminal vizinho. Há tempo para desejar boa sorte na vida a um outro bejense que num outro avião se irá estrear por terras britânicas. Na segurança, reencontro o senhor que se meteu com o meu cachecol no dia do Real Madrid-Sporting. E sorrio perante a coincidência, perante a familiaridade. Já não é a primeira vez que acontece. Certamente não será a última.

A minha tranquilidade acaba momentos depois. A máquina das águas fica-me com a moeda. O terminal está cheio, nem um lugar vazio. Somos avisados de um atraso, as malas estão a ir para o porão. E perdida perante tamanha confusão, reparo em como todas as pessoas me acham inglesa. Talvez por desta vez não sorrir.

Voo sempre com grande ansiedade. Quero sempre chegar. Hoje vou para Londres de forma diferente. Com uma ânsia acrescida. Com o medo de que algo tenha mudado devido aos mais recentes acontecimentos. E no longo percurso do terminal ao avião, despeço-me do sol. Guardo os óculos ao sentar e mentalizo-me que nos próximos tempos não os voltarei a usar.

Sinto que durmo durante grande parte do voo. Olhando momentaneamente pela janela. Distingo uma linha negra no mar. Pergunto-me até que ponto poderá ser a nossa poluição. Depois identifico a sombra do avião a guiá-la. A sombra do nosso rasto. Penso na expressão. Em como poderia carregar melancolia. Mas eu não a sentia.

E coincidência ou familiaridade, o Hino da alegria pela manhã não passava de um presságio da primeira viagem sem lágrimas.

Crónicas de uma Viajante V

Posted on July 19, 2017

Nas minhas últimas viagens, começo os dias com pézinhos de lã. Evitando que os outros acordem, que as escadas ranjam. Fechando a porta devagar. Mas é na correria de um sítio para outro e de transporte em transporte, entre telemóveis e tablets, que esta crónica é escrita.

O primeiro autocarro não pára. Já passa das oito da manhã. Numa cena quase de filme, corro a ponte com uma das vistas mais bonitas de Londres. A mala rosa de arrasto. A primeira reacção é pegar no telemóvel e ligar a quem nos pode ajudar. O vento não ajuda na comunicação, os semáforos das passadeiras parecem não mudar. E assim que acabo de chegar à paragem certa, o outro autocarro acaba com o meu minuto de pânico. Rendida ao alívio, encosto-me ao banco que quase me parece abraçar. Durante meia hora, passeamos pelas ruas Londrinas.

Em Borough Market ainda restam flores caídas. Em London Bridge, temos uma vista privilegiada sob Tower Bridge. As suas bandeiras balançam sincronizadas num céu rosado e ainda a acordar. E mais uma vez acredito estar a ver toda esta cena pura e calmante num ecrã de televisão.

Na rádio passam músicas dos anos 80. Estou prestes a adormecer perante os murais de rua, as mercearias 24h, a mistura da riqueza à pobreza. Os meus olhos caem sobre todos os sem-abrigos que dormem na relva de uma pequena capela. Com o som do sino, sinto estar perante a imagem de um cemitério vivo. A triste realidade que flores não assinalam, que ninguém chora. Fecho os olhos perante a crueza do cenário. Sinto-me prestes a adormecer, a voltar a sonhar com um mundo melhor quando na rádio toca a música que tenho cantado toda a semana “I say hey/ What’s going on?”. Sorrio. E perco-me a pensar em todos os Sensates da série que acabei de ver duas semanas antes. Em como promovem a ideia de estarmos todos unidos, em qualquer parte do mundo.

Nunca perco tempo a descrever como me sinto no aeroporto. Acho desnecessário, por não o conseguir explicar. Mas no aeroporto, tudo passa a correr. Tenho a noção deste post que tenho de escrever, de um outro para a universidade. Mas decido antes estudar francês. Entretenho-me ao ponto de não querer largar as aulas virtuais para comprar água e seguir para a porta de embarque.

Entramos para o avião minutos antes do habitual. Fico feliz ao pensar que chegaremos antes da hora prevista. Mal saberia na altura que isto não viria a acontecer. Já no avião, somos informados numa intensa vaga de calor que o controlo aéreo francês se encontra lotado, não nos dando autorização para levantar voo. Penso na ironia de decidir estudar esta língua no dia em que me apetece amaldiçoá-los.

Finalmente deixamos o Londres chuvoso, para aterrar numa Lisboa de temperaturas desérticas. O aeroporto encontra-se mais que congestionado. Oiço os estrangeiros brotar largos elogios através do que vêem pela janela. Vejo os jovens, em puro encanto, tirar fotos ao estádio verde e branco. Não consigo parar de sorrir, de me encher de orgulho. Por não estar de passagem, por ser de cá. E por essa razão, desta vez ao aterrar, recuso-me a ouvir a mesma música de sempre, limitei-me a deixar tocar a que a solidão acompanhou durante semanas. ‘Todos precisamos de alguém que fique’, esta diz entre o coro infantil. Como sempre, a musica termina no momento em que o avião pára. Mas eu não sou uma dessas pessoas. Eu vou. E volto. E continuarei a voltar, até cá ficar de vez.

Crónicas de uma Viajante IV

Posted on June 1, 2017

Os olhares são inevitáveis em qualquer viagem. São inúmeros e cruzados, por vezes até roubados mas representam o que de mais puro existe em nós. Sejam de curiosidade, vergonha, medo, aborrecimento, saudade ou felicidade. O dia começa com um deles. O que, ao abrir as janelas, fixo no ar. São quase cinco da madrugada e já é dia. Poucas são as nuvens que se deixam apanhar. Não esperam visitas antes do amanhecer. Parecem corar entre os cochichos das aves e o bocejo dos humanos. Enquanto engulo a torrada e o café sem apetite, tento manter-me calma ao reparar que pessoas já se arrastam pelas ruas, carros pelas estradas, o autocarro que apanharia pelo caminho até ao nosso ponto de encontro. Escrevo um post-it à pressa e fecho por fim a famosa mala rosa. Nas escadas de madeira que tanto rangem, acho os meus pés de veludo e quando fecho a porta num suspiro, dou corda aos sapatos.

O 45 já me esperava na paragem, não me dando tempo para procurar o Oyster. O autocarro entra em movimento antes mesmo de procurar um lugar para me sentar. Poucas são as paragens até ao autocarro que me leva ao aeroporto. Um senhor ainda com vestígios de festa em si, tenta convencer-nos a cantar. Há quem o ignore, quem o mande calar. Quem simplesmente o olhe e troque de lugar. Acaba por sair na paragem antes da minha.

Os quatorze graus que se assumem às seis da manhã, prometem uma temperatura agradável o resto do dia. Eu espero o segundo autocarro. Em meia hora o vento entra e saí pelas mangas largas do meu sobretudo. Os cabelos teimam em não me deixar o rosto. Dois rapazes pedem-me direções. E nestes 30 minutos vale-me o olhar como entretenimento. Os pombos voam por cima das armadilhas humanas. Um senhor passa naquele que é o maior skate que já alguma vez vi. A tudo isto penso tirar fotografia, mas por preguiça ou timidez nunca o faço.

Quando me vejo de novo sentada, encosto a cabeça ao vidro da janela. Entre os que dormem, vêem séries ou ouvem música sento-me eu. Com um livro no colo e uma curiosidade enorme perante os locais por onde passamos. Relembram-me a minha primeira viagem a Londres. A que me fez admitir nunca ser capaz de viver nesta cidade, mas que acabou por me fascinar ao ponto de me contrariar 5 anos depois. A beleza lá continua, o meu fascínio muitas vezes esquecido também. Penso em todas as vezes que me perguntei porque deixei Portugal. Em como não consegui focar-me no que esta cidade me ofereceu. Que ainda me tem para oferecer. As suas paisagens, as suas oportunidades, as suas livrarias, as suas culturas, as pessoas a quem por coincidência me acabou por juntar. O sono bate ao de leve. Mas teimo em não ceder. E não sei se é das primeiras horas da madrugada ou da torrada em seco ou do café que ainda não fez efeito, mas penso em como nada mudaria. Nem mesmo eu. O que me permite sorrir até ao final da viagem, sem ler uma única página do romance que me acompanha.

À chegada ao aeroporto, assusto-me com o número de pessoas na segurança. E por momentos acredito que não encontrarei tempo para o café com que vim a sonhar durante todo o caminho. Engano-me, em vinte minutos encontro-me sentada no banco mesmo em baixo dos ecrãs de informações. O meu café pousado, enquanto arrefece. Um casal português, para o qual tento não olhar, aproxima-se. “Um dia havemos de tirar uma semana de férias e escolher assim para onde vamos. Escolhe, escolhe agora.” ele diz. A companheira desvaloriza, continua a caminhar. Mas eu acredito que o fará. Conheço aquela força no olhar.

Mudo de lugar para finalmente começar a ler. Entre o passar das páginas o tempo voa e enquanto observo diretamente o que me rodeia, sigo para a porta de embarque. É das últimas, estando ainda mais perto das pistas e dos aviões. Conto duas aterragens e três descolagens enquanto ali esperamos pelas escadas para o avião. Vou à janela, como já se sabe ser habitual. E ao levantarmos voo, em ponto, algo me espera.

Vejo a sombra do avião nos campos verdes. Nada citadino. O sol entra pela janela diretamente para o meu rosto, nem as nuvens mais altas o conseguem esconder. A meio do voo reparo como as mais baixas se colam ao relevo das montanhas verdes, provavelmente francesas. E entre as paragens da música para ouvir o piloto falar, oiço uma criança chorar. Onde as nuvens se formam, onde ideias se juntam.

Na pausa da leitura, reparo nas asas. Consigo desvendar pegadas humanas entre o pó acinzentado. Tiro inúmeras fotos a pensar neste mesmo post. Penso em descansar a vista, mas não consigo parar de olhar. Em puro fascínio. Para como as nuvens se amontoam, rasgam e nos seguem. Para como o sol as rompe e aquece. A poucos minutos de aterrar, o piloto fala entusiasticamente sobre perfumes de verão. Quase os consigo cheirar. Mais uma vez todos tiramos os fones para ouvir. As primeiras três palavras apenas.

Lisboa aparece no horizonte. O entusiasmo estrangeiro contagia-nos e sorrimos. Atrás de mim comentam os telhados laranjas lisboetas, como são todos iguais. Riu para comigo, lembrando-me em como me atrevi a pensar o mesmo ao avistar os seus telhados castanhos durante a madrugada. Cheguei a tocar-lhes pelo vidro do autocarro.

À chegada, dois elementos da polícia esperam-nos. Vou no terceiro e último autocarro, apercebendo-me por isso bem mais tarde. Dentro do autocarro há quem se atreva a sentir mal, o calor que me queima através das calças pretas é mais do que estou habituada a aguentar.

É mesmo à saída que oiço os comentários sobre os que foram presos e os que eram procurados. Entre as pessoas que me acompanhavam no voo. Ninguém desconfiou. E a certeza só chegaria se aparecesse no telejornal mais tarde. Como chegou.

Fala-se no perfume. E curiosamente acabamos por comprar um nas poucas horas de passeio em Lisboa.

Sei que posso encostar-me ao vidro, enquanto deixo a capital para trás, e fechar os olhos. Não consigo. Na realidade, talvez a minha vontade de ver a vida seja tanta que não consiga fechar os olhos perante a vista que me apresentam. Na realidade, a minha escrita alimenta-se disto. A minha força encontra-se nesse gesto, o de não deixar fechar os olhos. Para que nada escape ao meu olhar.

 

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