Crónicas de uma Viajante X

Vimos o amanhecer em Portugal, mais propriamente no Alentejo, mas na noite anterior é impossível não pensar em como iremos adormecer num outro país. Com o barulho dos aviões ao invés dos pássaros a cantar. Com a luminosidade a interromper um sono leve que levará a um acordar confuso e a um ‘Onde estou?’. Por enquanto, pela manhã, preocupo-me apenas com o possível atraso do avião, o colocar todos os líquidos no habitual saco transparente, a encomenda que ainda está para vir e o bilhete por imprimir. Por momentos vivemos no momento apenas. Como senão existissem duas candidaturas a mestrado e muitas dúvidas pendentes. Como se estas não fossem definir se esta será, ou não, a última viagem para Londres a suprimir as lágrimas que teimam em aparecer e contagiar os que me levam. 

A caminho da capital admiro o entardecer. Já no aeroporto, repito o atraso de voo que me parece iminente, mas nunca chega a acontecer, o desejo de que enviem a mala rosa para o porão e a certeza de que não irá por ser tamanho o jeito que me daria. Na esplanada, perto da saída do aeroporto de Lisboa, vê-se o Tejo. E entre cada dentada do warm pastel de nata passa alguém que nos habituámos a ver na televisão, e cai uma nódoa de recheio para a mão. De atores a ex-jogadores, à selecção contra à qual jogaremos ainda esta semana. Na segurança não há fila, mas há falhas. Mas rapidamente ziguezagueamos por entre as amostras de perfumes de marca e os chocolates de quilo. 

Não há muito para apreciar no Terminal 1, conheço-o bem. Mas há um sentimento agradável em voltar ao mesmo. Relembra-me a viagem a Paris, o meu primeiro cancelamento de voo e a primeira viagem que sozinha fiz. Ao meu lado dois gémeos com cerca de 5 anos perguntam à mãe, ‘como é andar de avião? Nós nunca andámos’. Quero responder que é maravilhoso, mas que por vezes também nos confronta com o medo. Não respondo, mas eles contam-me. Voam para Guiné Bissau e acompanham-me até à porta de embarque, para que os guie. Os nossos aviões encontram-se estacionados lado a lado, mas só o meu, quase que para me contrariar, parece partir a horas.

Ao levantar voo, um arco íris recai sobre Lisboa, como se esta fosse o meu pote de ouro. E começam por isso os raciocínios que me acompanham há já três meses. Cá em cima reina a incerteza.

Permanecemos em altitude cruzeiro, a mais de 11 mil metros. E voamos a 800km/h. Da janela oposta entra uma luminosidade que cega, da minha vejo apenas a banalidade com que véus em tons rosados se enrolam. De um lado, fim de dia, do outro, início da noite. E como já é hábito, deslizamos a meio. 

Aterramos ao anoitecer. Penso em como esta pode ser a última vez que vejo Londres assim. Com admiração. Na escuridão. Nesta condição. Penso no que escrevi numa das minhas primeiras crónicas. Em como nessa altura tinha a certeza da razão pela qual não conseguia admirar as estrelas no céu Londrino. Em como elas estavam todas ali mesmo, em terreno firme, embutidas nos prédios ao longo do rio Tamisa, nos faróis dos autocarros de dois andares, no redondo Olhar da cidade. Ali mesmo, à distância de uns meros mil e tantos metros. De uma só aterragem. E em como ali mesmo, terei concretizado inúmeros desejos. Mas relembro também todas as vezes que perdi tempo a contar os segundos entre os aviões, de todas as janelas, de todos os meus quartos em Londres. Em como estes são também as minhas estrelas, os desejos porque tanto procurava. 

Pela primeira vez, perante estas questões, encontro serenidade. Não sei se por ser a última, ou a primeira de um novo ciclo, sinto uma enorme felicidade em voltar a esta cidade. Aterro com todas as dúvidas dissolvidas, mas não as descarrego ao aterrar. Quem diria que este sentimento iria encontrar lugar. Quem diria que era necessária tanta coragem para voltar.

Na última página

Apesar de estudar Escrita Criativa, não tenho uma dissertação onde eternizar os meus agradecimentos, por isso deixo os meus aqui. No local que nasceu das aventuras e infortúnios desta etapa. No local onde memorizo as minhas viagens, os meus sentimentos soltos e o que mais adoro no Mundo.

Quando parti trazia tudo isso numa só frase de J.M. Barrie, ‘The moment you doubt whether you can fly, you cease forever to be able to do it’/ ‘No momento em que duvidares que podes voar, deixarás de ser capaz de fazê-lo para sempre’, mas eu duvidei. Duvidei no momento em que entrei no avião. Duvidei no elevador do Keyworth Centre, após a minha primeiríssima aula na LSBU. E a partir daí, não parei de duvidar. E hoje, a queda dessa pequena crença revela-se como sendo apenas a minha primeira mudança. A segunda viria após uma lecture numa língua que pensei conhecer bem. No fim desta não me restavam dúvidas, não iria conseguir acabar o curso. A meu lado, uma outra Portuguesa falava-me na palavra que mais me aterroriza- desistência. Tentei inúmeras vezes convênce-la a ficar, iríamos conseguir fazer isto juntas. Na altura, as minhas palavras não chegaram para a convencer. Paula Oliveira, não me esqueci de si. Na verdade, foram muitas as pessoas que, no último ano, me perguntaram por onde andava. Também eu gostava de saber. Procurei-a no Facebook, mas sem resultados. Espero que um dia isto lhe chegue às mãos. Como lhe disse naquele dia, ‘nós conseguimos!’ Espero que sinta vontade de tentar outra vez.

Mas aquela aula seria apenas o começo de algo inexplicável.

Naquele minuto de caminho entre a residência e a universidade obriguei-me a não chorar. Duas horas depois tinhamos seminário. Pela primeira e última vez numa aula do Henderson, sentei-me na fila da frente, para poder apanhar qualquer informação. Não havia percebido na altura que o seminário era apenas uma discussão do que havíamos aprendido na aula- em que eu não tinha percebido nada. Quando questionada sobre o que achava do poema à minha frente respondi que não sabia, não compreendia poesia, que as minhas interpretações estavam sempre erradas. É possível que tenha referido o meu desgosto por não saber apreciar poesia. Três anos passaram, e eu deixei de fugir dela. Sento-me confortavelmente com ela no colo, escrevo-a desconfortavelmente no computador. E resta-me apenas dizer, obrigada.

Costumo dizer que a Suzanne, de todos os professores, foi a minha “mãe” durante todo o curso. Há pouco mais de uma semana fui ao meu último tutorial no seu escritório. Dizia-me como não esperava que escolhesse esta sua cadeira, muito menos que a entendesse e me empenha-se tanto. E perante o elogio do título e introdução que escolhi para o meu trabalho final, pergunto-lhe: ‘Lembra-se quando eu aqui cheguei desesperada e lhe disse que não sabia escrever um essay? Ou quando trazia as introduções para serem aprovadas e me mandava apagar tudo?’. Rimo-nos, como já é hábito. Mas as gargalhadas não me apagam as memórias. E apesar de pôr tudo em dúvida, não esqueço. Entre o comentário de um escritor e a discussão da importância do que estudamos à simples preocupação de perguntar, ‘Como estás? Não sei como tens aguentado’. De saída, os meus colegas que costumavam esperar à porta perguntavam-me: ‘mas do que se riem tanto? Pelas vossas conversas parecem tão felizes!’. E penso que isto, e a sua genuína e constante preocupação com o meu futuro diz tudo.

Mas estaria a ser injusta senão mencionasse a maneira como o Alex me fez questionar o Mundo, semanalmente. Ou como a Karlien me ensinou que não se aprende a ‘fazer’, mas sim na reflexão do que fizemos. E o Leon que me apresentou aos meus livros favoritos e me levou a escrever essays sobre as únicas duas temáticas em que prometi nunca tocar. E que hoje, são também as minhas favoritas. À Clare, que em tão pouco tempo demonstrou ser uma editora implacável mas que me incentivou mais que qualquer outro professor a escrever sobre nós- Portugal- e, acima de tudo, encorajou-me a explorar áreas que tanto temia.

E por incrível que pareça, a partir daqui, desta pequena frase, começam a soltar-se as emoções e a falhar o que adoro dominar- as palavras.

Martim, a pessoa que acreditou em mim antes de ler o meu primeiro texto. A pessoa que acreditou num sonho que eu ainda estava para ter. Há uns meses encontrei-o numa narrativa biográfica, desde então que não me permite que me perca- a minha ‘blue star’, que já contava os dias para a minha partida ainda eles ultrapassavam os Mil e Trezentos. O primeiro a saber, opinar e incentivar todos os meus planos. O que nunca, em circunstância alguma, seja qual for a situação, presente ou futura, me permite perder a esperança. (Mesmo quando devia…)

Mafalda, há pouco tempo dizias-me que te deveria agradecer e dar os devidos créditos. Ambas sabemos que nunca te conseguirei dar os que verdadeiramente mereces. Hoje agradeço-te “só” a tua paciência perante as frustrações, as lágrimas, as ideias loucas e teres dados as críticas e os conselhos que tanto precisava. (Não esquecendo a ideia do 25 de Abril!) Tudo o resto fica para quando verdadeiramente publicar algo.

Vanessa, tudo podia ter dado errado ao vir para cá. Mas no fim, tudo faria sentido se te tivesse conhecido. És, sem dúvida alguma, a pessoa que mais admiro (e já estou a contar com os meus escritores favoritos). Eu não conheço ninguém com tão pouco tempo e com tanta preocupação com os outros e, se a história do meu livro nunca se acertar, a tua estará pronta para ser contada ao Mundo na ponta da minha caneta. És a Meredith Grey da vida real e eu finalmente percebi porque é que toda a gente gosta tanto dela.

Valeriya, por seres a minha twin de quem tanto me orgulho. A que quase diariamente ouve as minhas queixas ou as minhas novidades, antes de qualquer outra pessoa. A que pode ficar semanas sem ouvir nada de mim e voltar com a mesma alegria de sempre. Ensinas-me a descontrair e és sempre a mente que me apazigua só por me entenderes. Isso não tem preço. (Estava a escrever lavada em lágrimas até chegar ao teu nome). E porque já ando há demasiado tempo para usar esta frase, aqui, em Portugal ou em Marte, Big Sister will aways be watching you. With a smile.

À minha Jolie, que nunca duvidou que viria para Londres. Que me levou a acreditar na minha escrita e que sempre me leu e interpretou como se fosse um livro, guiando-me até ao derradeiro fim desta história. E sem isso, nunca teria investido a minha vontade e crença no sonho que acabo de realizar.

Aos meus Super Pais, os únicos que se permitiram sofrer para me permitir crescer. E também os únicos verdadeiros responsáveis por há 32 meses estar aqui. São as pessoas que me fizeram perceber como a distância física pode ser dolorosa e como esta pode passar com um simples abraço. São quem nota pela minha voz o meu humor, a minha falta de paciência ou desilusão, mas são também a quem ligo primeiro quando recebo uma boa nota ou faço uma boa apresentação. E nada teria dado certo, se não se tivessem dedicado a educar-me e amar-me durante 21 anos. E como a Universidade me ensinou, tenho como prová-lo: ‘Se não gostasse de ti, não te deixava ir’ (Mãe, 20/04/2017), ‘Pensamento positivo. Acredita’ (Pai, 17/04/2017).

Leonor, a minha fraqueza e a minha vontade. Todas as palavras do Volta’s são sempre escritas contigo em mente [mesmo quando a Mãe acha que são para outras gentes]. Há um ano escrevia na tua fita de finalista, quando o caminho for trabalhoso pensa nas coisas felizes, é o mesmo que ter asas. Tu és as minhas.

Há outras pessoas a quem também tenho de agradecer. À Sofia, por a uma semi-distância ter partilhado a mesma experiência que eu e ser a que mais me compreende nas chegadas ao calor do Alentejo. Não consigo deixar de ter orgulho em ti.

Aos meus padrinhos e amigos que entravam nas chamadas de skype dos aniversários em família e que constantemente me relembravam o que significa estar em casa.

Also, I believe some people did not realize how important they were for me in this journey. Neil, Tracey & Dean for all the trust and endless opportunities you keep giving me every day. The Outreach and Engagement office for providing me with the opportunity to work in such a happy environment. It will be difficult to leave LSBU thanks to all of you. And obviously all the incredible ambassadors I’ve worked with. You are so talented and full of amazing ideas… My best moments in university are definitely with my yellow stars (and I am sorry I can’t name you all on this post). Two of you once asked me why I was always smiling, the truth is: you inspire me every single day. A very special thank you to Giorgia, who taught me everything from day one. You are the kindest soul I’ve met in London. I am certain that your talent and hard work will open wonderful doors for you and I am so glad our paths crossed. Also, Gennaro, I swear to God, every time I work with you I am a happier person. You are a natural! And one of my favourites, sweetheart. Timothy & Sajjad, I feel that you are my buddies since the beginning and I can’t help but smile while thinking about your own journeys. You deserve every opportunity you’ve been given.

And obviously, I cannot forget my first housemates. You made my adaptation to this country so much easier. I still tell everyone how amazing you all are. You will be part of my kindest memories in London forever. I also hope you can visit me more often!!!

To every other person I’ve worked and learned with, just because your name is not on this post it does not mean you are forgotten. You are in every action I daily perform. And I want to thank you for that.

Existem tantas, mas tantas outras pessoas que são família e estiveram à distância, ou até mesmo na incógnita a torcer por mim. Sei-o bem, senti-o sempre que as dúvidas se aproximavam. Aos que estiveram sempre aí, obrigada por acreditarem.

Acabo esta homenagem a todos vocês com um Nobel excerto que parece resumir tudo o que escrevi. Tenho-o repetido vezes sem conta, sem ligar aos limites de paciência de quem me rodeia: ‘a viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles’ (Saramago, 1981 in Viagem a Portugal)

Shakespeare & Co.

Sempre que me dedicava a pesquisá-la, desconfiava que o sonho espreitava ali. Hoje foi dia do realizar.
Chovia e havia fila para entrar. Cá fora há luzes, ainda que apagadas, livros usados e frases de encantar. Um caricatura de Wolf espreita do primeiro andar, um dos seus livros regala os olhos dos que esperam na montra do rés-de-chão. Pela primeira vez antes de entrar numa livraria. Não sei o que esperar. Na internet não há fotos do seu interior e pelos vidros de fora pouco se vê.
Assim que entro, deparo-me com o que mais adoro. Hemingway e o resto da Lost Generation na sua primeira parede. E não poderia deixar de ser assim, sendo Hemingway um amante dedicado a Paris.

Livros novos de ficção preenchem todo o espaço por onde toda a gente quer navegar, e através dos escadotes usados alcançar. Há salas e mais salinhas sem parar. Algumas estantes ameaçam cair, mas ali permanecem, paradas no seu tempo. A madeira das estantes é velha e quase que a oiço ranger. Mas são apenas as escadas, espelhadas num espelho que nos chama para o andar da poesia.
Tento esquecer o peito palpitante e a respiração ofegante que o pensamento traz, “Quero ficar aqui.” E fotografar o que não pode ser fotografado. Decorar o que sei que nunca poderia ser decorado, sem ser explorado mais do que uma vez.
Há chegada do primeiro andar, há pessoas nas almofadas velhas e a janela branca aberta, deixa entrar a luz que revela o pó no ar. E com ele um silêncio de maravilha que não se deixa assentar. Avisto outro espelho, e quero-me fotografar. Como fundo ficariam todos os livros usados, rasgados, com capas duras ou de cabedal. E eu quero. Ficar aqui.
Perdida no meu próprio fascínio, penso em como será difícil manter todos aqueles livros imaculados ou usados em perfeita condição num local como aquele. Que parece húmido e é cavernoso.
Os meus pais esperam-me. Ainda à chuva. E por isso, olho-me uma última vez ao espelho e deparo-me com um sorriso genuíno. Acabaram-se as desconfianças, o sonho mora aqui.

Crónicas de uma Viajante IX

Tudo o que é imprevisível causa stress e esta foi, sem dúvida, a viagem mais imprevisível de todas. A preocupação havia chegado no dia anterior. A hora mudava na madrugada do 25, era me pedido para confiar na tecnologia. “Os telemóveis mudam sozinhos!”, todos me diziam. E como sempre, eu confiei. Neles, que me acalmam. Mas ao acordar, não conseguia descansar sem ter de confirmar em todos os relógios manuais possíveis que tudo estava a bater certo. Apesar de estar confusa, decidi ‘pensar positivo’, como o Pai tanto diz.

Ao contrário do que havia acontecido na semana anterior, saía de casa com tempo. As ruas permaneciam sossegadas no seu silêncio, faltavam-lhe pessoas. O autocarro não tardou a chegar e tudo parecia abonar a meu favor ao encontrar um lugar para me sentar. No entanto, quando saio do primeiro autocarro, existe sempre uma pressa. No passeio estreito, zigue-zago a mala rosa e ao longe vejo duas silhuetas no local para onde me dirijo. Chegada à paragem do autocarro que me levaria para o aeroporto, quero mandar mensagem à Mãe, ‘Vês? Estão mais pessoas na paragem, é seguro’. Mas é cedo, faltam poucos minutos para as oito. E eu não quero acordar ninguém.

Os minutos continuam a passar, sem pressa. Está muito frio, e não consigo não pensar nas luvas esquecidas na outra mala. Ou no sol que estará em Portugal. E por saber que faltam poucas horas, sorrio. Nesse preciso momento sou alertada para o facto de não haver autocarros a passar. E talvez por isso a preocupação comece a ocupar lugar. Uma das silhuetas caminha. Para perto do semáforo. Para onde possa ver o autocarro que não chega, nem chegará. Telefono para a linha de apoio. É dia da meia maratona em Londres. E há falta de autocarros e estradas abertas, muitos são obrigados a correr. Lembro-me da corrida que descrevi na ponte de Blackfriars às cinco da manhã. Desta vez uso o outro lado da ponte, de fugida para o primeiro sinal de Underground que encontrar. Ligo de imediato a quem me pode ajudar, e começo assim a acordar todas as pessoas que melhor me conhecem. Antes das nove já me escrevem ‘Vá, tem calma’, ‘ainda tens tempo, mas percebo se quiseres chorar’. Olho para o emaranhado de linhas do mapa de metro Londrino. Blackfriars serve as linhas verde e amarela. Tudo parece fácil. Basta ir de metro até Liverpool Street e apanhar um comboio direto para o aeroporto. Não olho para o tempo, de momento temo-o. Escondo a mim mesma a possibilidade de perder o voo, não é uma opção. Mas chegada à plataforma, as colunas informam a uma estação vazia que apenas a linha verde está a funcionar, não há metro direto para onde tanto preciso de ir. ‘Saio na anterior, caminho até à próxima’, penso rapidamente.

Mas é á saída da estação que percebo, não sei por onde ir. Não consigo ver os nomes das ruas, e nem sei quais seguir. No caminho inteiro só encontro um mapa e é por esse que me guio. As ruas permanecem fechadas e Londres parece uma cidade fantasma. Não encontro ninguém que me possa orientar. Perco-me durante meia hora. E encontro a estação completamente ao acaso. Assim que chego não quero acreditar. O local é desde já mágico. À entrada tem uma estátua em bronze de crianças que parecem estar a cantar, mas em seu redor há dezenas de pessoas a pedir esmola. Corro para o andar debaixo, da plataforma 19 sai um às 9:17h. O relógio marca as 9:16h. Entro na carruagem já no bip da porta a fechar e mesmo ao meu lado direito tenho lugar. Envio mensagem a todos, vou a tempo de embarcar.

A viagem de comboio é deslumbrante. Encosto a cabeça ao vidro, a ouvir músicas de encantar e com o cansaço, mais parece que estou a sonhar. Passamos pelas árvores derrubadas sobre os lagos. Pelos patos que seguem as mães. Por casas com jardins de inverno e estufas viradas para campos pintados e infindáveis. Passamos por campos de campismo e riachos com cascatas. Barcos-casa, cisnes e pontes escondidas por amendoeiras e chorões. Quero fotografar e filmar todo o caminho, mas bem sei que o telemóvel não conseguirá captar. E estou cansada, mesmo quase a chegar.

A chegada ao aeroporto é stressante, já passa das dez. A viagem de avião nunca foi tão desejada, precisava de ir para casa. E precisava urgentemente de dormir. Pareceu-me no entanto rápida, com uma sesta pelo meio, o meu snack favorito mais para o fim, e 81 páginas de um livro que tanto queria ler. Fazemos a rota que menos gosto, e é enquanto sobrevoamos o esplendor de Lisboa que o vento nos apanha. Descemos tortos, quase aos tombos e não parece haver maneira de nos endireitarmos. As asas ajustam-se. Os motores ouvem-se a trabalhar. Há quem se agarre aos assentos, dê a mão ao desconhecido do lado ou expire com medo. Os bebés choram com as dores nos ouvidos. Eu, apenas temo a aterragem que parece nunca mais chegar.

As tão esperadas lágrimas chegam com o ‘Senhoras e senhores, bem-vindos a Lisboa’, mas nunca chegam a cair.

Crónicas de uma Viajante VIII

Prometi a mim mesma que hoje não escreveria. Não havia tempo. Há uma proposta para preparar, um trabalho para entregar. Não podia passar de hoje. Mas até há meia-noite havia tempo e por isso sentei-me para escrever perante a vista nebulosa mas luminosa da Ponte Vasco da Gama.

O dia tinha começado cedo, o despertador tocou às cinco, o stress acordou às seis ao avistar as horas no autocarro. Sabia aquele caminho de cor. Não iria conseguir estar no local em 4 minutos. Com cada toque do botão vermelho do 45, e em cada paragem, aumentava o pânico. Mas chegada ao destino lá estavam mais dois estrangeiros, certamente a pensar o mesmo que eu, ‘não sou o único’.

A entrada no autocarro também não é fácil. Pela primeira vez encontra-se cheio. Nem um par de bancos vazio. Lá mesmo ao fundo, avisto um. No centro do corredor e das atenções das luzes. Dirijo-me rapidamente, quase sem olhar para a pessoa com quem irei partilhar as próximas horas. E é quando me estou prestes a sentar que reconheço quem desvia a mala para o vagar. Somos embaixadoras e estrangeiras na mesma universidade. Começámos a mesma aventura no mesmo dia, com a mesma falta de experiência, uma faixa laranja a combinar e o mesmo receio no olhar. Pergunto-lhe ‘que fazes aqui?!’, sem pensar, ‘vais para casa?’. Diz-me que não. Vai para Lisboa e mais uma vez penso, ‘não sou a única’. Fico genuinamente feliz, por ela. Por finalmente conhecer o sítio de que passo a vida a falar. Sobre o qual não me consigo calar. Tem voo às nove, o mesmo que o meu. Mas no avião não vamos na mesma fila e eu agradeço, ‘preciso de acabar o trabalho’. Naquele momento, já com o aeroporto em vista, só precisamos de um café.

Comentamos a segurança. A minha sorte, o azar dela. E tudo se desenrola assim, como prevemos aos tropeções na fila, como já nos habituámos. Rimos no fim. Ela a atar os cordões, eu a gabar-me do rímel. Já na mesa do café abrimos mapas e aplicações, partilhamos locais e informações. Londres não é para sempre. E ela também não quer lá permanecer. Desta vez digo em alto, ‘não sou a única’. Veio conhecer Lisboa, ‘quem sabe… se gostar…’, (e confessa-me mais tarde, poucas horas após aterrar, que em tantas cidades, esta é a sua favorita).

Entramos cedo no avião, mas não temos autorização para partir. E no entretanto, vou reconhecendo as caras de alguns hospedeiros de bordo. Alguns já lhes conheço o nome e eles o meu lugar. Sorrio perante a familiaridade. Abro o computador, a proposta é sobre o local a que chamamos casa e em como este pode diferir de onde nascemos, crescemos e vivemos. Escrevo sobre como em cidades multiculturais como Londres as culturas são híbridas. Mas entre bocejos olho pela janela, procuro distrações. Já lá no alto pouco se vê. As nuvens cobrem quase toda a nossa rota. E eu escrevo sobre elas, as rotas, em como nos mudam através do tempo. Como a percepção de um local, muda consoante esse tempo que não domamos e a nossa própria percepção. E em como casa deixa de ser um só lugar.

Chego à conclusão que escrevo sobre o que vivo enquanto viajo. Porque para nós, hoje não faz frio. Entre os casacos de inverno, destacam-se os nossos braços a balançar de alegria. A comer a salada para fugir do vapor quente da sopa. A rir à chuva e a desdenhar a neve que tão cedo voltará a Londres.

Relembro a nossa aterragem, é o Comandante que me faz sorrir com as suas primeiras palavras em Português, ‘não passem por baixo da asa, dá azar. Sejam bem-vindos a casa’. E pela primeira vez escrevo o que sei sobre o significado da palavra ‘casa’ e que esta em que aterro, não é única.

 

 

 

Os poetas de hoje em dia

Passam por

Meia dúzia de gatos pingados

-os poetas de hoje em dia-

leem entre os bafos de um cigarro

e cruzam-se nas esquinas da Mouraria.

 

Encontram-se nas mesas espelhadas de café,

-os poetas de hoje em dia-

confiam na sorte que lhes traz a maré

e brindam ao pôr-de-sol que admiram.

 

Juntam-se pelo cigarro partilhado,

procuram o fogo que sem se ver ardia,

Aquele que Camões bem conhecia,

e sem caminho traçado

-Os poetas de hoje em dia-

comentam que do tempo lhes foi roubado

a desejada profecia.

 

Andam à chuva para se molhar

E pelo caminho ficam as beatas

‘Ai, os miúdos de hoje em dia’,

Pintam-se em frases simples

nas paredes abandonadas

de casas prestes a ser derrubadas

só porque lhes apetecia.

 

 

Mas no barulho da irreverência,

agarra-lhes pela mão a apatia,

dos versos foge-lhes o fado,

olham a noite sentados no telhado-

-os poetas de hoje em dia.

 

Já no silêncio,

 

soletram nomes

em tom de melodia,

não estivesse o dia no fim

-o poema acabado-

e o cigarro

prestes a ser

apagado.

 

 

Crónicas de uma Viajante VII

Nunca pensei muito no que me leva a escrever estas crónicas. Hoje podia simplesmente ser por preguiça. Por alguma razão não me apetece explorar Shakespeare, ponderar e argumentar. Sobre o que pensava. O que escreveu. Quero só aproveitar este sol que me queima os braços até que ele exista. Mas talvez eu precise disso, tal como ele. De assentar. Aterrar. Para explorar os temas da emigração atual. Da minha escolha. Das minhas casas. Da sua existência e inexistência. Das suas consequências. Da minha própria presença no mundo. Há dias em que olhamos para trás. O dia da viagem é sempre um deles.

São quase 3000km e hoje volta a apetecer-me escrever sobre eles. Sobre a nossa receção de braços em baixos em Londres. Sobre os sorrisos simpatéticos para com um inglês que não é perfeito. Hoje dão 8ºC de máxima. De manhã, em Portugal o sol chega aos 16ºC. Levamos comida nas malas e nos lábios o mantra “é so um mês”.
Penso se devo escrever sobre aquele segredo que tão bem sabemos guardar e que já tantas vezes quebrei o pacto e tentei revelar. Vontade não falta. Mas ainda não será hoje.

De chegada ao terminal, uma senhora italiana simpatiza comigo. Vejo-a perdida num aeroporto que já conheço tão bem. Não sabe para onde virar. Talvez por isso se vire para mim. Ao pensar que sou italiana, relembra-me porque estudo línguas e linguagens. Percebo o seu italiano, ela o meu português. Às vezes tenho de dar uso ao inglês para que me entenda. Sorri quando lhe digo que vou para Londres. Com gestos explica que será o seu próximo destino, que deve ser um sonho. Para já volta a Itália. Mostra-me o seu bilhete. Estamos ambas atrasadas. Desatamos numa correria, entre as amostras de perfume e as garrafas de bebida. Ela segue-me as passadas e eu digo-lhe onde fica a sua porta de embarque. Agradece-me amistosamente. Por momentos, não penso em ficar. Não há tempo.

Chegada à porta de embarque, já me esperam no final da fila. A mala rosa já é conhecida por ir para o porão. Nas mensagens de ‘boa viagem’ e nas obrigatórios chamadas de ‘quando embarcares…’ vem sempre a pergunta, ‘Então e a mala? Sempre foi para o porão’. Já deixou de ser algo que simplesmente consigo antecipar. Na minha cabeça, as frases que tenho a escrever vão se formando. Testando. Juntando. Paro, assim que me sento no avião.

Se há algo que me ensinaram faz hoje precisamente dois anos, é que quando se chora nunca se olha para trás.

Nos dedos sinto o cheiro a jornal, que passaram ansiosamente pelas palavras de António Lobo Antunes. Na razão pela qual publica as suas crónicas. Eu penso na minha. Fecho os olhos e revejo os meus pais a caminhar para a porta. A minha irmã de mãos dadas, entre os dois. Costas voltadas para mim. Levamos o mesmo nos olhos. Cada um para seu canto. Do mundo barulhento, no silêncio da mente. E por essa razão continuamos a entrar rapidamente no avião. E a encontrar razões para perder tempo nas crónicas que não consigo parar de editar.