Despedi-me de ti

Despedi-me de ti como se me despedisse de um lugar
Um paraíso para o qual sempre queria voltar
Despedi-me de ti ao despir-me da inocência
e no seu lugar ficou apenas a tua ausência
Despedi-me de ti quando desviava o olhar para a lua
no jardim onde senti que já não era tua
Despedi-me de ti como se fosses um lugar
que sem querer tive de abandonar
Mas ao despedir-me de ti, despedi-me também do lugar
que agora esqueço de recordar.

Na folha de papel

Arranquei a folha de cor amanteigada do típico caderno de capa preta. E desatei a escrever. Procurei as palavras que por vezes esquecia e cujo o significado me deixava a pensar. A duvidar. A caneta era a mais requintada que encontrara. Precisava de ter tudo neste papel. Para lhes poder tocar, traçar com a ponta dos meus dedos. Tirá-las do mundo digital. Torná-las reais. Para que nelas pudesse acreditar. Para que a sorte soubesse onde as encontrar. Durante noites inteiras perdi sono propositadamente só para escolher um lugar. Que fosse especial. E escondido. Para que mais ninguém as pudesse ler, até mesmo pegar. Já tinha, outrora, feito o mesmo. Até hoje não me lembro onde essa carta possa estar. Ainda choro a pensar. Tenho medo. Que aconteça outra vez. Que eu me esqueça. Que o dia-a-dia não as venha buscar. Mas arrisco na mesma. Ficam bem pertinho de mim. Em algo que nunca passo de mão em mão. Encostadas à página que torna o que é real, menos real. Que desafia o significado. Que insiste em mudar sempre que as leio. Que continua a testar, em vez de provar. Troco a caneta por grafite. Para relembrar que nada é eterno. Nem mesmo em papel. E agora, mesmo impressas na minha caligrafia, estas continuam a questionar “Não é bonito pensar que sim?”.

Para Sylvia Plath

Reunimo-nos para celebrar Sylvia Plath. E havia perguntas dentro de mim que procuravam ser respondidas. Não porque não lhes achasse resposta, mas porque pareciam demasiado vagas perante a imensidão de tamanho alento. O que tem a sociedade do século XXI a aprender com Sylvia Plath? O que pode ter tanto para dizer a mulher de um dos poetas mais famosos e acarinhados do Reino Unido? Que impacto podem ter os pensamentos de uma artista tantos anos depois?

Minutos antes do começo, reflito. Começámos este festival a homenagear o poeta que o criou há precisamente 50 anos. Encerramos o mesmo com uma homenagem a uma outra poeta. Há poeta que já era Mulher, antes de ser mulher de Hughes. Há menina de 7 anos que escreveu uma carta com cores ao pai. Há jovem que detestava o tempo, a comida e os homens ingleses. Há depressão que encontrou em si, e que partilha com a humanidade.

Fui das primeiras a entrar na sala. Com os que estavam prestes a chegar partilhava a silenciosa frustração da palestra ser tão longa. E, mais tarde, de ser tão curta. É de arrepiar, ver uma sala encher com homens e mulheres de todas as idades e estilos. A mesma sala que não se encheu para a maior celebração de poesia mundial, completou-se pelo trabalho de uma só poeta. A Americana adotada, e largamente admirada, do Reino Unido.

É a filha destes dois poetas quem começa o evento. E não consigo disfarçar a sensação de estar num velório, ou até mesmo num funeral. Os convidados e oradores expandem-se no preto. As emoções trespassam as palavras cuidadosamente escolhidas para a ocasião. Existe um pesar comum na sala. Um sentimento individualista e impossível de explicar a não ser pela leitura de Plath. Quando Frida entra em palco, a surpresa é geral. Entre o que deveria ser dito, e previamente escrito, existem correções pessoais. Cumprindo o seu papel de filha, Frida defende o seu pai das recentes polémicas reveladas nas cartas de sua mãe. Os seus olhos ainda brilham de angústia e orgulho, quando nos revela que acredita convictamente que os seus pais, pelo seu talento e trabalho, estarão eternamente casados até mesmo após as suas mortes. Com ela, todos acreditamos e quase suspiramos ‘amém’. Assim, todos os que vieram movidos pela carreira de Plath, mas mais ainda pelos mais recentes factos, silenciaram a sua curiosidade por respeito aos que prolongam a mortalidade destes dois poetas. Numa noite em que os dois passaram de figuras míticas a comuns imortais.

É fácil, tão fácil, encontrarmo-nos nas palavras de Plath. A mulher que encontra uma palavra sempre que respira, um verso para cada suspiro seu. A poeta que estende em papel de carta o que a alma tenta esconder da mente, o que corta a respiração pela vida. E perante a frontalidade com que aborda a monstruosidade natural, Plath expõe o que temos em comum e sentimos ser só nosso. E é assim que a nós, leitores, ‘our loving Sivvy’ nos tira o fôlego.

Terminamos com uma gravação da própria a ler um dos seus mais famosos poemas, Spinster. E apesar das gargalhadas, o pesar ainda murmura. Para muitos uma vida inteira não é suficiente. Para Sylvia Plath, 30 continuam a sobrar.

Que nos leve

Escolhi as palavras como cura e caminho. Dou-lhes somente uso a tentar remendar. No fundo, com o desejo que consigo o vento as possa levar. Que cheguem a braços abertos, que as possam abraçar. Que celebrem o que nem sempre posso celebrar. Que marquem a minha presença onde não posso estar.

Vão-me enchendo o vazio, mas sei que não o lugar. Esforço-me para que quando o dia chegar, elas possam contar. E aliviar o pesar. Ergo-me nas palavras e deixo-me levar. Para o caso de por as ter escolhido, já nada me restar.

Na dúvida do ser

Ninguém é o que quer. Somos o que fazemos para atingir o que desejamos. Como reagimos quando não atingimos o desejado. Quem se atrever a dizer que tem a certeza do que é, arrisca-se a errar. A entrar nas desconfianças do ser. Todas as pessoas que se procuram encontram-se nas palavras de quem as escreve, as mais perdidas deste mundo. É esse o nosso papel, é para isso que nos arrastamos pelas páginas fora. Para lhes mostrar que a maior lição que a nossa solidão nos ensinou, foi que ninguém está sozinho nas suas mais íntimas dúvidas do ser.

Já eu, nunca me conheci com vontade de ser o que sou, estar onde estou. Do que conheço de mim, gosto de fugir e para trás olhar. Recordar. E voltar a viver o que vivi. De fingir ainda mais aquilo que sou, do que acredito ser. Do pouco que me conheço sou infiel. Digo o que quero sem querer, as palavras saltam antes do dever. O que mais conheço é incerto, e isso reconheço. Mas é do que desconheço que escrevo, e gosto mais.

 

Crónicas de uma Viajante VI

Rodava devagar. Como lhe tinha ensinado na noite anterior, e a pequena caixa de música suavemente libertava o hino da alegria pela manhã. Acabara de fechar a típica mala portuguesa cheia de bacalhau seco, o chocolate que me pediram e alguma roupa mais leve. O caminho para Lisboa é alegre e cheio de conversa, pois repetirar-se-à daí a um mês. Entre as gargalhadas soltas, a Mãe relembra-me da altura em que desejava ser pintora ou bióloga marinha. De me ter dito que teria de estudar noutra cidade que não a minha. Relembra-me ainda que disse que não iria sem os meus pais. A testa franze como no dia em que decidi que não o seria. Algo mais alto se alevantava. Além fronteiras, além mar.

À pressa, engolimos o último pastel de nata e fugimos para o terminal vizinho. Há tempo para desejar boa sorte na vida a um outro bejense que num outro avião se irá estrear por terras britânicas. Na segurança, reencontro o senhor que se meteu com o meu cachecol no dia do Real Madrid-Sporting. E sorrio perante a coincidência, perante a familiaridade. Já não é a primeira vez que acontece. Certamente não será a última.

A minha tranquilidade acaba momentos depois. A máquina das águas fica-me com a moeda. O terminal está cheio, nem um lugar vazio. Somos avisados de um atraso, as malas estão a ir para o porão. E perdida perante tamanha confusão, reparo em como todas as pessoas me acham inglesa. Talvez por desta vez não sorrir.

Voo sempre com grande ansiedade. Quero sempre chegar. Hoje vou para Londres de forma diferente. Com uma ânsia acrescida. Com o medo de que algo tenha mudado devido aos mais recentes acontecimentos. E no longo percurso do terminal ao avião, despeço-me do sol. Guardo os óculos ao sentar e mentalizo-me que nos próximos tempos não os voltarei a usar.

Sinto que durmo durante grande parte do voo. Olhando momentaneamente pela janela. Distingo uma linha negra no mar. Pergunto-me até que ponto poderá ser a nossa poluição. Depois identifico a sombra do avião a guiá-la. A sombra do nosso rasto. Penso na expressão. Em como poderia carregar melancolia. Mas eu não a sentia.

E coincidência ou familiaridade, o Hino da alegria pela manhã não passava de um presságio da primeira viagem sem lágrimas.

Monsanto

Para lá chegarmos fizemos o caminho que o fogo destruiu. E da janela do autocarro já era possível compreender que iriamos bem para o topo daquele mundo rochoso.

Queria ter-me sentado à janela de madeira. Encostada à pedra. Escondida entre as cortinas brancas na brisa matinal entrelaçadas.  E de joelhos abraçados ao peito, com uma caneta e papel na mão não parar de escrever o que via para além do telhado. Olhar o horizonte, os montes, a mistura dos dois reinos e dos seus limites. Do sol, das nuvens, do verde que se mantém. Sem saber onde um termina e o outro começa. Se algum chega a terminar. Sem questionar porque se unem. Tudo isto gostava de ter fechado nas páginas do pequeno caderno azul. Mas tempo não o havia. Apenas o sino, a criação humana, o conseguia contar. E tal como o ambiente que nos envolvia, as sessões e os seus temas entrelaçavam-se. As nossas vozes ecoavam pelas íngremes ruas. À noite, entre os penedos a sua geologia cochichava ao ver-nos passar. E da varanda onde podemos admirar as estrelas, apontam-se para as luzes vermelhas ao longe que não conseguimos decifrar.

E dos 0 aos 114 anos, conhecido pelas míticas Marafonas, permanece a alma jovem da D.Alice, as histórias da D. Edite, o som dos adufes- A aldeia mais Portuguesa de Portugal. Mas foi nos suspiros dos penedos que esta voz se foi encontrar, depois do galo de prata, que enchia os seus olhos, se virar.