we own them

Crónicas de uma Viajante IX

Posted on March 26, 2018

Tudo o que é imprevisível causa stress e esta foi, sem dúvida, a viagem mais imprevisível de todas. A preocupação havia chegado no dia anterior. A hora mudava na madrugada do 25, era me pedido para confiar na tecnologia. “Os telemóveis mudam sozinhos!”, todos me diziam. E como sempre, eu confiei. Neles, que me acalmam. Mas ao acordar, não conseguia descansar sem ter de confirmar em todos os relógios manuais possíveis que tudo estava a bater certo. Apesar de estar confusa, decidi ‘pensar positivo’, como o Pai tanto diz.

Ao contrário do que havia acontecido na semana anterior, saía de casa com tempo. As ruas permaneciam sossegadas no seu silêncio, faltavam-lhe pessoas. O autocarro não tardou a chegar e tudo parecia abonar a meu favor ao encontrar um lugar para me sentar. No entanto, quando saio do primeiro autocarro, existe sempre uma pressa. No passeio estreito, zigue-zago a mala rosa e ao longe vejo duas silhuetas no local para onde me dirijo. Chegada à paragem do autocarro que me levaria para o aeroporto, quero mandar mensagem à Mãe, ‘Vês? Estão mais pessoas na paragem, é seguro’. Mas é cedo, faltam poucos minutos para as oito. E eu não quero acordar ninguém.

Os minutos continuam a passar, sem pressa. Está muito frio, e não consigo não pensar nas luvas esquecidas na outra mala. Ou no sol que estará em Portugal. E por saber que faltam poucas horas, sorrio. Nesse preciso momento sou alertada para o facto de não haver autocarros a passar. E talvez por isso a preocupação comece a ocupar lugar. Uma das silhuetas caminha. Para perto do semáforo. Para onde possa ver o autocarro que não chega, nem chegará. Telefono para a linha de apoio. É dia da meia maratona em Londres. E há falta de autocarros e estradas abertas, muitos são obrigados a correr. Lembro-me da corrida que descrevi na ponte de Blackfriars às cinco da manhã. Desta vez uso o outro lado da ponte, de fugida para o primeiro sinal de Underground que encontrar. Ligo de imediato a quem me pode ajudar, e começo assim a acordar todas as pessoas que melhor me conhecem. Antes das nove já me escrevem ‘Vá, tem calma’, ‘ainda tens tempo, mas percebo se quiseres chorar’. Olho para o emaranhado de linhas do mapa de metro Londrino. Blackfriars serve as linhas verde e amarela. Tudo parece fácil. Basta ir de metro até Liverpool Street e apanhar um comboio direto para o aeroporto. Não olho para o tempo, de momento temo-o. Escondo a mim mesma a possibilidade de perder o voo, não é uma opção. Mas chegada à plataforma, as colunas informam a uma estação vazia que apenas a linha verde está a funcionar, não há metro direto para onde tanto preciso de ir. ‘Saio na anterior, caminho até à próxima’, penso rapidamente.

Mas é á saída da estação que percebo, não sei por onde ir. Não consigo ver os nomes das ruas, e nem sei quais seguir. No caminho inteiro só encontro um mapa e é por esse que me guio. As ruas permanecem fechadas e Londres parece uma cidade fantasma. Não encontro ninguém que me possa orientar. Perco-me durante meia hora. E encontro a estação completamente ao acaso. Assim que chego não quero acreditar. O local é desde já mágico. À entrada tem uma estátua em bronze de crianças que parecem estar a cantar, mas em seu redor há dezenas de pessoas a pedir esmola. Corro para o andar debaixo, da plataforma 19 sai um às 9:17h. O relógio marca as 9:16h. Entro na carruagem já no bip da porta a fechar e mesmo ao meu lado direito tenho lugar. Envio mensagem a todos, vou a tempo de embarcar.

A viagem de comboio é deslumbrante. Encosto a cabeça ao vidro, a ouvir músicas de encantar e com o cansaço, mais parece que estou a sonhar. Passamos pelas árvores derrubadas sobre os lagos. Pelos patos que seguem as mães. Por casas com jardins de inverno e estufas viradas para campos pintados e infindáveis. Passamos por campos de campismo e riachos com cascatas. Barcos-casa, cisnes e pontes escondidas por amendoeiras e chorões. Quero fotografar e filmar todo o caminho, mas bem sei que o telemóvel não conseguirá captar. E estou cansada, mesmo quase a chegar.

A chegada ao aeroporto é stressante, já passa das dez. A viagem de avião nunca foi tão desejada, precisava de ir para casa. E precisava urgentemente de dormir. Pareceu-me no entanto rápida, com uma sesta pelo meio, o meu snack favorito mais para o fim, e 81 páginas de um livro que tanto queria ler. Fazemos a rota que menos gosto, e é enquanto sobrevoamos o esplendor de Lisboa que o vento nos apanha. Descemos tortos, quase aos tombos e não parece haver maneira de nos endireitarmos. As asas ajustam-se. Os motores ouvem-se a trabalhar. Há quem se agarre aos assentos, dê a mão ao desconhecido do lado ou expire com medo. Os bebés choram com as dores nos ouvidos. Eu, apenas temo a aterragem que parece nunca mais chegar.

As tão esperadas lágrimas chegam com o ‘Senhoras e senhores, bem-vindos a Lisboa’, mas nunca chegam a cair.

To do

Posted on March 23, 2018

‘To do’ works as a clock,

wakes up early,

slowly at first.

With no need for alarm

Almost without rising its voice.

Crawling after one’s legs,

one’s sleep,

one’s mind.

Until the heart feels it too,

Getting it closer

with every tick

every tack.

To. do. To. do.

In our own heartbeat.

To. do. To. do.

And it gets faster

and faster

with the pressure of the mind,

running our own blood pressure.

Closer to the deadline,

It is just…

To do. To do. To do.

And it is almost reaching

the end of the line,

its flatness,

The seconds right before finishing

that it comes the last to do,

to do,

to.do, to.do.

to….

Crónicas de uma Viajante VIII

Posted on March 16, 2018

Prometi a mim mesma que hoje não escreveria. Não havia tempo. Há uma proposta para preparar, um trabalho para entregar. Não podia passar de hoje. Mas até há meia-noite havia tempo e por isso sentei-me para escrever perante a vista nebulosa mas luminosa da Ponte Vasco da Gama.

O dia tinha começado cedo, o despertador tocou às cinco, o stress acordou às seis ao avistar as horas no autocarro. Sabia aquele caminho de cor. Não iria conseguir estar no local em 4 minutos. Com cada toque do botão vermelho do 45, e em cada paragem, aumentava o pânico. Mas chegada ao destino lá estavam mais dois estrangeiros, certamente a pensar o mesmo que eu, ‘não sou o único’.

A entrada no autocarro também não é fácil. Pela primeira vez encontra-se cheio. Nem um par de bancos vazio. Lá mesmo ao fundo, avisto um. No centro do corredor e das atenções das luzes. Dirijo-me rapidamente, quase sem olhar para a pessoa com quem irei partilhar as próximas horas. E é quando me estou prestes a sentar que reconheço quem desvia a mala para o vagar. Somos embaixadoras e estrangeiras na mesma universidade. Começámos a mesma aventura no mesmo dia, com a mesma falta de experiência, uma faixa laranja a combinar e o mesmo receio no olhar. Pergunto-lhe ‘que fazes aqui?!’, sem pensar, ‘vais para casa?’. Diz-me que não. Vai para Lisboa e mais uma vez penso, ‘não sou a única’. Fico genuinamente feliz, por ela. Por finalmente conhecer o sítio de que passo a vida a falar. Sobre o qual não me consigo calar. Tem voo às nove, o mesmo que o meu. Mas no avião não vamos na mesma fila e eu agradeço, ‘preciso de acabar o trabalho’. Naquele momento, já com o aeroporto em vista, só precisamos de um café.

Comentamos a segurança. A minha sorte, o azar dela. E tudo se desenrola assim, como prevemos aos tropeções na fila, como já nos habituámos. Rimos no fim. Ela a atar os cordões, eu a gabar-me do rímel. Já na mesa do café abrimos mapas e aplicações, partilhamos locais e informações. Londres não é para sempre. E ela também não quer lá permanecer. Desta vez digo em alto, ‘não sou a única’. Veio conhecer Lisboa, ‘quem sabe… se gostar…’, (e confessa-me mais tarde, poucas horas após aterrar, que em tantas cidades, esta é a sua favorita).

Entramos cedo no avião, mas não temos autorização para partir. E no entretanto, vou reconhecendo as caras de alguns hospedeiros de bordo. Alguns já lhes conheço o nome e eles o meu lugar. Sorrio perante a familiaridade. Abro o computador, a proposta é sobre o local a que chamamos casa e em como este pode diferir de onde nascemos, crescemos e vivemos. Escrevo sobre como em cidades multiculturais como Londres as culturas são híbridas. Mas entre bocejos olho pela janela, procuro distrações. Já lá no alto pouco se vê. As nuvens cobrem quase toda a nossa rota. E eu escrevo sobre elas, as rotas, em como nos mudam através do tempo. Como a percepção de um local, muda consoante esse tempo que não domamos e a nossa própria percepção. E em como casa deixa de ser um só lugar.

Chego à conclusão que escrevo sobre o que vivo enquanto viajo. Porque para nós, hoje não faz frio. Entre os casacos de inverno, destacam-se os nossos braços a balançar de alegria. A comer a salada para fugir do vapor quente da sopa. A rir à chuva e a desdenhar a neve que tão cedo voltará a Londres.

Relembro a nossa aterragem, é o Comandante que me faz sorrir com as suas primeiras palavras em Português, ‘não passem por baixo da asa, dá azar. Sejam bem-vindos a casa’. E pela primeira vez escrevo o que sei sobre o significado da palavra ‘casa’ e que esta em que aterro, não é única.

 

 

 

In the heart

Posted on March 3, 2018

Follow your heart

Like it is a candle
It ‘knows the way’
Says its handle
but when you
reach it
be aware
it is not written
you are prepared
Listen faith,
You have a mind
Do not believe
it is all behind
Walk slowly and
Find your crutch
What shines at first
Might burn at touch

Os poetas de hoje em dia

Posted on February 20, 2018

Passam por

Meia dúzia de gatos pingados

-os poetas de hoje em dia-

leem entre os bafos de um cigarro

e cruzam-se nas esquinas da Mouraria.

 

Encontram-se nas mesas espelhadas de café,

-os poetas de hoje em dia-

confiam na sorte que lhes traz a maré

e brindam ao pôr-de-sol que admiram.

 

Juntam-se pelo cigarro partilhado,

procuram o fogo que sem se ver ardia,

Aquele que Camões bem conhecia,

e sem caminho traçado

-Os poetas de hoje em dia-

comentam que do tempo lhes foi roubado

a desejada profecia.

 

Andam à chuva para se molhar

E pelo caminho ficam as beatas

‘Ai, os miúdos de hoje em dia’,

Pintam-se em frases simples

nas paredes abandonadas

de casas prestes a ser derrubadas

só porque lhes apetecia.

 

 

Mas no barulho da irreverência,

agarra-lhes pela mão a apatia,

dos versos foge-lhes o fado,

olham a noite sentados no telhado-

-os poetas de hoje em dia.

 

Já no silêncio,

 

soletram nomes

em tom de melodia,

não estivesse o dia no fim

-o poema acabado-

e o cigarro

prestes a ser

apagado.

 

 

Don’t be a reader

Posted on November 27, 2017

Don’t.
Don’t be a reader.
Don’t be a reader, if you want to be rich. Don’t be a reader, if you want not to think as a witch. Don’t be a reader, if you want to be ordinary. Don’t be a reader, if you want to keep using ‘very’. Don’t be a reader, if you want to be… eejit. Don’t be a reader, if you want not to commit. Don’t be a reader, if you only want to talk about what exists. Don’t be a reader, if you want books out of your lists. Don’t be a reader, if you want to criticise others more. Don’t be a reader, if you want to run from a chore. Don’t be a reader, if you want not to know. Don’t be a reader, if you want to sleep though.

Don’t be a reader, if you want to have only a choice. Don’t be a reader, if you want a low passive voice.

And if you want to keep your opinion? Don’t be a reader.
Oh, “but what if I want to be social?”. Don’t. Be a reader. If you want to. Be adventurous. Be a dreamer. Be an animal. Be a spirit and a fighter… Or. a reader, yourself. Simply, be. A reader. Oh, if you want to… Be. A Reader

Crónicas de uma Viajante VII

Posted on November 22, 2017

Nunca pensei muito no que me leva a escrever estas crónicas. Hoje podia simplesmente ser por preguiça. Por alguma razão não me apetece explorar Shakespeare, ponderar e argumentar. Sobre o que pensava. O que escreveu. Quero só aproveitar este sol que me queima os braços até que ele exista. Mas talvez eu precise disso, tal como ele. De assentar. Aterrar. Para explorar os temas da emigração atual. Da minha escolha. Das minhas casas. Da sua existência e inexistência. Das suas consequências. Da minha própria presença no mundo. Há dias em que olhamos para trás. O dia da viagem é sempre um deles.

São quase 3000km e hoje volta a apetecer-me escrever sobre eles. Sobre a nossa receção de braços em baixos em Londres. Sobre os sorrisos simpatéticos para com um inglês que não é perfeito. Hoje dão 8ºC de máxima. De manhã, em Portugal o sol chega aos 16ºC. Levamos comida nas malas e nos lábios o mantra “é so um mês”.
Penso se devo escrever sobre aquele segredo que tão bem sabemos guardar e que já tantas vezes quebrei o pacto e tentei revelar. Vontade não falta. Mas ainda não será hoje.

De chegada ao terminal, uma senhora italiana simpatiza comigo. Vejo-a perdida num aeroporto que já conheço tão bem. Não sabe para onde virar. Talvez por isso se vire para mim. Ao pensar que sou italiana, relembra-me porque estudo línguas e linguagens. Percebo o seu italiano, ela o meu português. Às vezes tenho de dar uso ao inglês para que me entenda. Sorri quando lhe digo que vou para Londres. Com gestos explica que será o seu próximo destino, que deve ser um sonho. Para já volta a Itália. Mostra-me o seu bilhete. Estamos ambas atrasadas. Desatamos numa correria, entre as amostras de perfume e as garrafas de bebida. Ela segue-me as passadas e eu digo-lhe onde fica a sua porta de embarque. Agradece-me amistosamente. Por momentos, não penso em ficar. Não há tempo.

Chegada à porta de embarque, já me esperam no final da fila. A mala rosa já é conhecida por ir para o porão. Nas mensagens de ‘boa viagem’ e nas obrigatórios chamadas de ‘quando embarcares…’ vem sempre a pergunta, ‘Então e a mala? Sempre foi para o porão’. Já deixou de ser algo que simplesmente consigo antecipar. Na minha cabeça, as frases que tenho a escrever vão se formando. Testando. Juntando. Paro, assim que me sento no avião.

Se há algo que me ensinaram faz hoje precisamente dois anos, é que quando se chora nunca se olha para trás.

Nos dedos sinto o cheiro a jornal, que passaram ansiosamente pelas palavras de António Lobo Antunes. Na razão pela qual publica as suas crónicas. Eu penso na minha. Fecho os olhos e revejo os meus pais a caminhar para a porta. A minha irmã de mãos dadas, entre os dois. Costas voltadas para mim. Levamos o mesmo nos olhos. Cada um para seu canto. Do mundo barulhento, no silêncio da mente. E por essa razão continuamos a entrar rapidamente no avião. E a encontrar razões para perder tempo nas crónicas que não consigo parar de editar.

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