Crónicas de uma Viajante V

Nas minhas últimas viagens, começo os dias com pézinhos de lã. Evitando que os outros acordem, que as escadas ranjam. Fechando a porta devagar. Mas é na correria de um sítio para outro e de transporte em transporte, entre telemóveis e tablets, que esta crónica é escrita.

O primeiro autocarro não pára. Já passa das oito da manhã. Numa cena quase de filme, corro a ponte com uma das vistas mais bonitas de Londres. A mala rosa de arrasto. A primeira reacção é pegar no telemóvel e ligar a quem nos pode ajudar. O vento não ajuda na comunicação, os semáforos das passadeiras parecem não mudar. E assim que acabo de chegar à paragem certa, o outro autocarro acaba com o meu minuto de pânico. Rendida ao alívio, encosto-me ao banco que quase me parece abraçar. Durante meia hora, passeamos pelas ruas Londrinas.

Em Borough Market ainda restam flores caídas. Em London Bridge, temos uma vista privilegiada sob Tower Bridge. As suas bandeiras balançam sincronizadas num céu rosado e ainda a acordar. E mais uma vez acredito estar a ver toda esta cena pura e calmante num ecrã de televisão.

Na rádio passam músicas dos anos 80. Estou prestes a adormecer perante os murais de rua, as mercearias 24h, a mistura da riqueza à pobreza. Os meus olhos caem sobre todos os sem-abrigos que dormem na relva de uma pequena capela. Com o som do sino, sinto estar perante a imagem de um cemitério vivo. A triste realidade que flores não assinalam, que ninguém chora. Fecho os olhos perante a crueza do cenário. Sinto-me prestes a adormecer, a voltar a sonhar com um mundo melhor quando na rádio toca a música que tenho cantado toda a semana “I say hey/ What’s going on?”. Sorrio. E perco-me a pensar em todos os Sensates da série que acabei de ver duas semanas antes. Em como promovem a ideia de estarmos todos unidos, em qualquer parte do mundo.

Nunca perco tempo a descrever como me sinto no aeroporto. Acho desnecessário, por não o conseguir explicar. Mas no aeroporto, tudo passa a correr. Tenho a noção deste post que tenho de escrever, de um outro para a universidade. Mas decido antes estudar francês. Entretenho-me ao ponto de não querer largar as aulas virtuais para comprar água e seguir para a porta de embarque.

Entramos para o avião minutos antes do habitual. Fico feliz ao pensar que chegaremos antes da hora prevista. Mal saberia na altura que isto não viria a acontecer. Já no avião, somos informados numa intensa vaga de calor que o controlo aéreo francês se encontra lotado, não nos dando autorização para levantar voo. Penso na ironia de decidir estudar esta língua no dia em que me apetece amaldiçoá-los.

Finalmente deixamos o Londres chuvoso, para aterrar numa Lisboa de temperaturas desérticas. O aeroporto encontra-se mais que congestionado. Oiço os estrangeiros brotar largos elogios através do que vêem pela janela. Vejo os jovens, em puro encanto, tirar fotos ao estádio verde e branco. Não consigo parar de sorrir, de me encher de orgulho. Por não estar de passagem, por ser de cá. E por essa razão, desta vez ao aterrar, recuso-me a ouvir a mesma música de sempre, limitei-me a deixar tocar a que a solidão acompanhou durante semanas. ‘Todos precisamos de alguém que fique’, esta diz entre o coro infantil. Como sempre, a musica termina no momento em que o avião pára. Mas eu não sou uma dessas pessoas. Eu vou. E volto. E continuarei a voltar, até cá ficar de vez.

Crónicas de uma Viajante II

Toco no vidro da já familiar janela de avião, misturando as minhas dedadas com as impressões digitais de desconhecidos. Até nestas que nos definem, somos todos iguais.
Por momentos penso impacientemente que a minha mente me prega uma rasteira e desencontro-me. Da janela do meu quarto deixo-me perder entre os traçados esbranquiçados no céu. Vejo os aviões a partir. Pelo menos três de cada vez. Toco-lhes através do vidro. Relembram-me que estou longe, mas também que posso pertencer onde estes me levarem. Desta vez não me deixo enganar, vou voltar. Esteja de que lado estiver, voa comigo a melancolia que durante o dia se perdia nos transportes públicos. De autocarro até à estação de metro de Elephant and Castle, parando em Trafalgar para recolher um livro da Waterstones, a caminho de Oxford Circus onde almoçaria. Mais tarde viria a trocar de linha em Piccadilly. Pelo menos 10 quilos levava em bagagem de mão, ignora-se tudo o que levamos dentro de nós. Pelo menos tenta-se. Demasiadas emoções para uma bagagem só. Dentro de duas horas uma despedida, dentro de 5 uma quebra na minha rotina Londrina.
É no metro a caminho de Heathrow Terminal 3 que reparo num senhor atento a tudo o que o rodeia. Escreve num pequeno caderninho cheio de datas e pequenas frases. Sei o que faz. Várias vezes me deixo trair pela tentação de fazer o mesmo. Possivelmente sorrio, sem malícia. Encostada ao vidro mesmo ao seu lado, tento decifrar a sua caligrafia sem que se aperceba. Ao tentar distrair-me concentro-me nas mãos constantemente sujas. Sei que no dia seguinte terei dores nos braços de carregar a mala em todas as escadas das diferentes estações de metro. Há três meses não sabia como iria aguentar estar fora, mas quando estamos de volta parece que passaram a voar. Parece que em Portugal o Natal se cola com a Páscoa e o Verão. Ingenuamente, e sem nos apercebermos, acreditamos que três meses não os separam. Que não nos separam.
Acabo por escrever no aeroporto, sem qualquer novidade. Aproveito o último latte de baunilha, enquanto respondo às mensagens de quem viaja sempre comigo. Oiço a música de acordo com o movimento das pessoas nas cadeiras e sinto-me finalmente em paz. Talvez a música me faça acreditar que a minha vida pertence a um plano, a um destino tão desejado que se tornará realidade. Dizem que o tempo passa a correr quando estamos em boa companhia e no aeroporto comigo certamente foge.
Algo muda assim que entro no avião. Mesmo ainda antes de entrar, acho. Das cadeiras perto da porta de embarque não oiço português, falo com a minha mãe ao telemóvel e quase verto uma lágrima ao ver um avião da TAP descolar. O céu ainda não escureceu totalmente, mas não me concentro no que está atrás do vidro que sujo com as minhas palmas. Nas colunas ouve-se constantemente a mesma mensagem da funcionária do aeroporto que minutos antes me levou a mala para o porão.
Quero descolar. Quero encostar-me a esta mesma janela. Quero ler e escrever e ouvir música, mas sinto-me irrequieta. Enquanto o chá e batatas fritas continuam a ser vendidas, as pessoas que se lembram de ir à WC levam com os meus olhares de desaprovação. E apesar de parecer mais longa que o normal, fazemos a viagem em metade do tempo previsto.
O mapa com o avião nos televisores aumenta a minha ansiedade. Será que escolhi o lugar certo? À esquerda para Londres, à direita para Lisboa de maneira a ter a melhor vista possível. Quero ver o estádio, faz parte da rotina trimestral. E finalmente, começamos a avistar Lisboa. Procuro com o olhar o Cristo Rei, que me guia através da sua posição. Descanso. Estou no lugar certo.
A senhora atrás de mim no avião chora devagar. Em silêncio. Num silêncio que eu compartilho. Fazemos parte de uma nova geração de emigrantes achados a cada país que visitamos, cujas histórias se perdem entre rotas aéreas unidas pela identidade portuguesa da saudade. Tal como compartilho a experiência do senhor que vi no metro. E que sei que escrevia sobre mim, sobre a vista, sobre quem estava na carruagem e do que falavam, como eu agora escrevo dele.
Quando aterro, mergulhada na letra da música habitual, expiro. Sinto que sustive o ar durante muito tempo e que respiro agora pela primeira. E tento não pensar se parei de respirar quando saí de Londres ou se quando para lá fui.
A minha viagem começa às onze e meia da manhã quando saio de casa. Aterro às onze da noite. Mas a viagem acaba apenas quando entro na minha outra casa. Não são mais de mil quilómetros que as separam, mas sim 14 horas de toques no vidro das janelas.

Crónicas de uma Viajante I

Sempre me senti injustiçada por nunca ter tido a sorte de ver uma estrela cadente. A minha esperança era tão desmedida que, por vezes confundia-as com meros aviões. E quando já nem a esperança me restava, perguntava-me se seria possível ver as estrelas uns metros mais perto, da janela de um avião.

Era hoje. Tinha me deitado a pensar que teria de acordar para me ir deitar noutro país. Acordara às 8:31h pela voz do meu despertador e entre todas as mensagens de boa viagem, estava a que me informava do cancelamento do meu voo. Sim, aquele que por muitas razões não queria apanhar.

Pela casa, uma irmã ria e repetia “Deus ouviu-me”. Despedimo-nos por isso como se nos fossemos ver daí a umas horas. Ela assim convencida e eu assim me tentava enganar. os maiores sabiam que era uma mera ilusão. “Adiar o inevitável”, como disse a Mãe. Um simples telefonema tirou-nos as dúvidas. Tinha sido colocada no voo das 16h. Tudo voltou. Desta vez ficaria fora três meses. Já lhe tinha perdido o hábito. O nevoeiro Lisboeta era a principal razão dos cancelamentos aéreos. 98% de humidade revelava a aplicação, enquanto atravessávamos a Ponte Vasco da Gama. Desta vez a mãe não graceja com o nome, ‘debaixo da cama’. A vista da cidade de Lisboa, que sempre me alimentou o suficiente para aguentar a saudade, era então mais uma lenda de D. Sebastião. Mesmo assim tentávamos ao máximo lembrar-nos de coisas para rir, tentando esquecer a razão pela qual estávamos ali. Só choramos dois minutos antes. Admito em voz alta que não sei como irei aguentar. E promessas de visitas e a mala do portátil são as únicas coisas que levo em mãos.

Chegada à porta de embarque 44A somos informados de um atraso de mais de meia hora e convidados a sentar. Somos muitos, é o maior avião em que já voei. No entretanto não sei se passa meia hora, mas sei que passa a correr. Talvez por ainda querer ficar.

Dois autocarros levam-nos vagarosamente até ao avião. A lotação é de 80+14. Os meus olhos, que ansiosamente procuram o estádio do Sporting como referência, aterram numa rapariga que foge dos policias na pista. Penso que muitos saberão disto pelo telejornal. Na viagem fala-se de terrorismo, acidentes com aeronaves e usa-se a palavra proibida. Há quem não ache piada, há quem se ria das desgraças. Enquanto todos esperam ver um avião substancialmente maior. ‘Só tem mais barriga’ uma voz masculina comenta.’De cerveja’ outra acrescenta.

Apesar de sermos mais, ninguém demora muito a instalar-se. Todos temos pressa, cada um com a sua. O piloto informa-nos que só temos autorização para descolar depois das 17.02h. Depois de dois ou três dedos de conversa, o senhor ao meu lado pergunta-me as horas, no preciso minuto em começamos a ganhar velocidade. “Home” de Gabrielle Aplin enche-me os pulmões do último pedacinho de ar português. E na seguinte curta-metragem Lisboeta antes mesmo de atravessarmos o nevoeiro, as palavras “I will always keep you with me/ You’ll be always on my mind/ But there’s a shining in the shadows/I’ll never know unless I’ll try” acalmam-me. E quase que acredito que falam de mim.

É a meio do voo que o meu companheiro do lado chama a minha atenção para a Lua na noite cerrada. Está alaranjada e não sei se é da falta de visão, do cansaço ou das lágrimas anteriores mas parece-me turva, quase que em pixeis. De um lado do avião é noite, do outro dia. E penso em como ando sempre no meio. Em cada país. Em cada mood. Em cada vida.

Estão -53ºC a muitos metros de altitude. Neva lentamente em Londres. Desligo o computador e encosto a testa ao vidro gelado da janela. Sei que o meu sonho e as pessoas que tenho nos dois lados podem ser as únicas razões pelas quais me encosto e solto as lágrimas, mas hoje as minhas dúvidas dissipam-se. Cá em cima ainda se vêem as estrelas.