Os olhos de quem vai

Nos últimos dois anos, por esta altura, vejo a célebre incerteza no rosto dos que decidem partir. Aquela que a toda à força tentamos mascarar. Estamos a uma viagem de avião da mudança. E ao contrário do que se possa pensar, todos vamos sozinhos e assustados. Da solidão amedrontados.

Os desafios começam cedo e nos dedos não cabem o que temos a perder. Mas na nossa mente vive uma força fusca que acredita ser incontável o que temos a ganhar. Entre a primeira viagem de ida e o primeiro ‘voltei’ os dias não voam, o humor não se fixa e as ilusões, ainda que pequenas, começam a ser questionadas.

Nada é preto no branco. Tudo se combina com o céu londrino e o seu tempo incerto. Estamos no centro do mundo e apesar de crescermos à força, sentimo-nos pequenos perante tanta confusão. Ainda assim, acreditamos. E vamos continuando a acreditar que um dia poderemos voltar. Que a distância vai compensar.

Os olhos de quem vai não são iguais aos de quem fica. Não albergam lágrimas. Neles não peregrina a saudade, mas levam consigo todas as outras emoções. A de pertencer, sem pertencer. A de não nos sentirmos em casa em nenhum lugar. O sentimento familiar, no desconhecido.

Como bons portugueses, temos em nós todos os sonhos do mundo e é por isso que os conseguimos conquistar. E por essa razão, os olhos de quem vai não refletem os de quem volta.

 

 

Internacionalização

Escrevo devido às constantes partilhas de noticias e posts em todas as outras redes sociais que levantam dúvidas sobre a permanência de estrangeiros no Reino Unido. Não sou uma voz activa em nenhuma frente política e atrevo-me a comentar na ignorância apenas o que penso sobre este assunto que tão me é questionado.

Há cerca de três anos participei numa pequena actividade proporcionada pela União Europeia, onde aí sim tivemos a oportunidade de nos fazermos ouvir através de projectos práticos. Lembro-me de uma das responsáveis frisar que o conceito de emigração estava errado, que quando íamos para o estrangeiro estávamos apenas a contribuir para a nossa internacionalização. Pessoalmente, utilizo e oiço mais vezes o termo ’emigrante’ do que ‘imigrante’, ao invés do que achei ser a mais pura das verdades. Algo que não corresponde à pura das realidades.

Já me aventurei a escrever sobre este tema diversas vezes, hoje arrisco ainda mais. Atrevo-me a dizer que para haver internacionalização é necessário existir aceitação a nível global, algo extremamente difícil de alcançar. Uma espécie de utopia, arrisco-me duplamente a admitir. Porque na realidade o ‘E’ de emigrante, de exterior, também representa Exclusão. O que me leva a outra partilha arriscada. Só se dá valor ao que temos quando perdemos. E o contacto multicultural que grandes cidades, como a de Londres, proporcionam não se limita a aumentar o nosso conhecimento e respeito para com todas as diferentes culturas e raças. Mas sim, a valoriza-las e a definir afincadamente a nossa individualidade cultural. Diminuo o risco e substituo o popular ‘perdemos’ para ‘nos afastamos’ noutra frase que tomava por uma verdade pura. Não tento afirmar que somos mais Portugueses quando deixamos os pastéis de Belém, o ‘fino’ ou a açorda. Tento apenas sublinhar que nos sentimos mais Portugueses quando percebemos o valor da palavra ‘saudade’.

Deveria talvez desmistificar o conceito das tais verdades que tomava como puras. Mas perder-me-ia em todas as suas nuances políticas, sociais, culturais e principalmente, individuais. Porque verdade só há uma: nenhuma verdade é pura. E essa sim, é a mais pura das verdades.

Números

É naqueles dias em que o sol não se esconde, e me afaga o rosto que me vejo a perguntar porque não gosto de números. Dias raros, esses, em que não sou eu própria a esconder-me da controversa questão, ‘Como é viver no estrangeiro?’. De início, revela-se fácil responder com um ‘é ter tudo em duplicado’. Duas casas, duas escovas de dentes, dois grupos de amigos, duas famílias, duas línguas. Nas conversas enleiam-se os de cá e os de lá, e nas duas línguas vão tropeçando o país de sangue e o do coração… Difícil é explicar que se alberga o dobro das saudades, que se carregam malas com o dobro do bacalhau, sabendo que não sobra até ao Natal; que o que nos falta do país onde não estamos no momento sobra em duas ou três palavras perdidas da sua ‘mother language’. Difícil é explicar, e aceitar, que só podemos ser metade de cada vez. E assim me sirvo dos números sabendo que só os 110 mil que com eles vivem conseguem realmente entender.