Que nos leve

Escolhi as palavras como cura e caminho. Dou-lhes somente uso a tentar remendar. No fundo, com o desejo que consigo o vento as possa levar. Que cheguem a braços abertos, que as possam abraçar. Que celebrem o que nem sempre posso celebrar. Que marquem a minha presença onde não posso estar.

Vão-me enchendo o vazio, mas sei que não o lugar. Esforço-me para que quando o dia chegar, elas possam contar. E aliviar o pesar. Ergo-me nas palavras e deixo-me levar. Para o caso de por as ter escolhido, já nada me restar.

Os olhos de quem vai

Nos últimos dois anos, por esta altura, vejo a célebre incerteza no rosto dos que decidem partir. Aquela que a toda à força tentamos mascarar. Estamos a uma viagem de avião da mudança. E ao contrário do que se possa pensar, todos vamos sozinhos e assustados. Da solidão amedrontados.

Os desafios começam cedo e nos dedos não cabem o que temos a perder. Mas na nossa mente vive uma força fusca que acredita ser incontável o que temos a ganhar. Entre a primeira viagem de ida e o primeiro ‘voltei’ os dias não voam, o humor não se fixa e as ilusões, ainda que pequenas, começam a ser questionadas.

Nada é preto no branco. Tudo se combina com o céu londrino e o seu tempo incerto. Estamos no centro do mundo e apesar de crescermos à força, sentimo-nos pequenos perante tanta confusão. Ainda assim, acreditamos. E vamos continuando a acreditar que um dia poderemos voltar. Que a distância vai compensar.

Os olhos de quem vai não são iguais aos de quem fica. Não albergam lágrimas. Neles não peregrina a saudade, mas levam consigo todas as outras emoções. A de pertencer, sem pertencer. A de não nos sentirmos em casa em nenhum lugar. O sentimento familiar, no desconhecido.

Como bons portugueses, temos em nós todos os sonhos do mundo e é por isso que os conseguimos conquistar. E por essa razão, os olhos de quem vai não refletem os de quem volta.

 

 

Crónicas de uma Viajante V

Nas minhas últimas viagens, começo os dias com pézinhos de lã. Evitando que os outros acordem, que as escadas ranjam. Fechando a porta devagar. Mas é na correria de um sítio para outro e de transporte em transporte, entre telemóveis e tablets, que esta crónica é escrita.

O primeiro autocarro não pára. Já passa das oito da manhã. Numa cena quase de filme, corro a ponte com uma das vistas mais bonitas de Londres. A mala rosa de arrasto. A primeira reacção é pegar no telemóvel e ligar a quem nos pode ajudar. O vento não ajuda na comunicação, os semáforos das passadeiras parecem não mudar. E assim que acabo de chegar à paragem certa, o outro autocarro acaba com o meu minuto de pânico. Rendida ao alívio, encosto-me ao banco que quase me parece abraçar. Durante meia hora, passeamos pelas ruas Londrinas.

Em Borough Market ainda restam flores caídas. Em London Bridge, temos uma vista privilegiada sob Tower Bridge. As suas bandeiras balançam sincronizadas num céu rosado e ainda a acordar. E mais uma vez acredito estar a ver toda esta cena pura e calmante num ecrã de televisão.

Na rádio passam músicas dos anos 80. Estou prestes a adormecer perante os murais de rua, as mercearias 24h, a mistura da riqueza à pobreza. Os meus olhos caem sobre todos os sem-abrigos que dormem na relva de uma pequena capela. Com o som do sino, sinto estar perante a imagem de um cemitério vivo. A triste realidade que flores não assinalam, que ninguém chora. Fecho os olhos perante a crueza do cenário. Sinto-me prestes a adormecer, a voltar a sonhar com um mundo melhor quando na rádio toca a música que tenho cantado toda a semana “I say hey/ What’s going on?”. Sorrio. E perco-me a pensar em todos os Sensates da série que acabei de ver duas semanas antes. Em como promovem a ideia de estarmos todos unidos, em qualquer parte do mundo.

Nunca perco tempo a descrever como me sinto no aeroporto. Acho desnecessário, por não o conseguir explicar. Mas no aeroporto, tudo passa a correr. Tenho a noção deste post que tenho de escrever, de um outro para a universidade. Mas decido antes estudar francês. Entretenho-me ao ponto de não querer largar as aulas virtuais para comprar água e seguir para a porta de embarque.

Entramos para o avião minutos antes do habitual. Fico feliz ao pensar que chegaremos antes da hora prevista. Mal saberia na altura que isto não viria a acontecer. Já no avião, somos informados numa intensa vaga de calor que o controlo aéreo francês se encontra lotado, não nos dando autorização para levantar voo. Penso na ironia de decidir estudar esta língua no dia em que me apetece amaldiçoá-los.

Finalmente deixamos o Londres chuvoso, para aterrar numa Lisboa de temperaturas desérticas. O aeroporto encontra-se mais que congestionado. Oiço os estrangeiros brotar largos elogios através do que vêem pela janela. Vejo os jovens, em puro encanto, tirar fotos ao estádio verde e branco. Não consigo parar de sorrir, de me encher de orgulho. Por não estar de passagem, por ser de cá. E por essa razão, desta vez ao aterrar, recuso-me a ouvir a mesma música de sempre, limitei-me a deixar tocar a que a solidão acompanhou durante semanas. ‘Todos precisamos de alguém que fique’, esta diz entre o coro infantil. Como sempre, a musica termina no momento em que o avião pára. Mas eu não sou uma dessas pessoas. Eu vou. E volto. E continuarei a voltar, até cá ficar de vez.

Crónicas de uma Viajante III

Cinco para a uma. Madrugada. Hora do check-in. Sem dar importância à coincidência, apercebo-me que voei para Londres a 20 de Novembro e que agora, cinco meses depois, repetiria o feito no mesmo TP368 do passado. Sempre no meu lugar predilecto 17F.  Contra a superstição de alguns, registo agora o meu 13º voo entre as cidades de Lisboa e Londres. A minha viagem, por mais que não queira ir, começa aqui. 36 horas antes.

Fecho os olhos. Nasce uma revolução. A das despedidas, a de não ser certo quando posso voltar. Na insónia da uma encontro tempo para pensar. Continuo sem saber a que emoção estas viagens se podem associar. Se podem ser relacionadas apenas a uma. Se há palavra que descrevam as tais incógnitas é Incerteza. Todas as oportunidades que Londres me dá começam a ser repensadas, quando começam a parecer ideias borradas. Na manhã em que parto só me é certo que por mais enjoos e ardor nos olhos que ir embora me dê, ouvir a palavra aeroporto contagia-me de uma inexplicável paz interior.

Fecho os olhos para abraçar o sol. Desta vez ignoro a cidade de Lisboa enquanto atravessamos a ponte Vasco da Gama. Na verdade, ignoro tudo. Entre as conversas com a Mãe, escondo a noção de para onde seguimos. Em poucos minutos sou obrigada a decidir. A possibilidade de dar ouvidos à emoção que me pede para ficar é abalada por um fechar de olhos forçado pela razão. Não posso perder este voo. Foi a minha provação. O momento em que a minha vida adulta tomou as rédeas.

Fazem-se apostas de quem poderá ir no mesmo voo que eu. Das colunas Imagine Dragons gritam ‘Believer’, mordo um sorriso e fecho os olhos para esconder as lágrimas.

Ignorei as despedidas até já ser tarde e por isso não as escrevo aqui, mas desta vez não as escondi. Os olhos estavam pela primeira vez abertos perante a realidade de partir.

Prestes a embarcar, o nó do estômago substitui o da garganta. Todos os ‘gostos de ti’ e ‘obrigados’ têm de ser ditos, relembrados. Nada pode ficar por dizer, felizmente a distância apaga mas também ajuda a apegar.

Mesmo antes de chegar à porta de embarque correta espreito um dos ecrãs informativos. O meu primeiro ‘Last call’ nem me dá tempo dos olhos esbugalhar. Corro à velocidade que a minha mala permite. Na porta de embarque poucos são os que se encontram na fila. No autocarro não passamos de 20. E assim que entramos em movimento procuro rapidamente o estádio com o olhar. Encosto-me ao banco num suspiro, fecho os olhos ao de leve, não vão as lágrimas cair. Já posso partir.

Cinco para o meio dia. Tarde. Prevejo um atrasado, as rodas levantam já o Big Ben bate a uma. As nuvens dão-nos tréguas e vemos Portugal quase de Lisboa a lés. Um enredo de verdes e acastanhados em círculos e caminhos. As pálpebras pesam, mas não consigo deixar de olhar. Fecho os meus espelhos da alma assim que atingimos as nuvens. Ainda consigo avistar uma a formar.

O bip desperta-me para milhas do meu estado de transe. O comandante fala-nos: atingimos a altitude de cruzeiro, 11 600 metros.

No meio do bom tempo somos apanhados na turbulência. Desta nada se vê. Nem nuvens, nem ventos. Apenas movimentos bruscos da asa. 3 minutos de olhares pela janela desdobram-se numa infinidade de minutos. Foco-me na vista. Lá em baixo, o mar relembra-me um céu noturno de constelações, devido aos seus pontos e véus esbranquiçados. Geograficamente sei que país sobrevoamos, mas as suas formas não formam mapas na minha mente.

Concentro-me nas horas que o computador marca enquanto beberico o habitual café no copo de papel com a calçada portuguesa estampada. Em todos os voos penso em escondê-lo na mala. Hoje não é exceção, continuo a pensá-lo e a entregá-lo ao saco preto. 14:33. Estou a uma hora de aterrar, a uma e meia de descolar.

Tento recuperar as horas de sono perdidas. Penso, não consigo deixar de pensar em como não suportava o calor do meu quarto em Portugal esta manhã. Espreito pela janela do quarto inglês. O céu que atravessei há apenas umas horas escurece de uma só vez. Ficaria grata se a chuva caísse nessa mesma noite. Como sempre o tempo tende a contrariar-me. Em cima da secretária Portuguesa ficou a garrafa de água comprada no aeroporto Londrino, nesta pousa água da Serra da Estrela comprada no de Lisboa. 20 dias separam a compra destas garrafas, o símbolo da minha chegada.

Antes de acabar de editar este post olho com curiosidade para as horas no ecrã do portátil que regista todas estas aventuras. 00:55. Para variar atraso-me a pontuar, bate a uma da manhã de momento. Talvez seja apenas mais uma coincidência, mas quem como eu olhar, irá em algo mais acreditar. Com esta conclusão fecho os olhos, para finalmente descansar.

Meros astros

Da solidão da noite luzes escorregam,
Meros astros que ao acaso se cruzam,
Dos olhares trocados que todos deduzam,
As borboletas no estômago que ambos carregam.
Dedos salgados que na areia se procuram,
Unem-se nos corpos celestes que no ar desenham,
Suspiram desejos, e promessas que venham
Sorteá-los com memórias, que das saudades curam.
Foge-lhes o tempo que tanto queriam,
Agarram-se todas as noites que se podem,
Todas as estrelas cadentes os acodem
dos anos luz capaz de mudar o que sentiam.
Da escuridão da noite agora caem,
Lágrimas silenciosas por não ter ninguém,
Mesmo que da varanda aviste esse alguém,
Ignoram-se os sentimentos que sobressaem.
Apertam-se os lábios de que ambos fogem,
Rega-se a relva em que descalços corriam,
Mal sabiam eles que das estrelas nasciam,
Divinos sentimentos, que em terra morrem

O meu Zoo

Sempre sonhei em ter um zoo. Começar um de raiz e passear pela gravilha, dando silenciosamente os bons dias a cada espécie com um café quente na mão, mesmo antes das portas abrirem ao público. Nunca achei possível passar de uma realidade virtual para a que vivo. Apenas porque teria de lidar com números, e já todos sabemos como tento fugir deles. Foi nessa caminhada matinal, e mental, que percebi porque queria escrever sobre este assunto. O que mais gosto nos Zoos é o que tento alcançar na escrita, saber que proporciono momentos. Momentos entre um pai ou uma mãe ao ler uma história para adormecer; momentos entre um velho e o seu jornal; momentos em que descobrimos o nosso autor favorito; momentos em que vemos alguém a ler o mesmo que nós. Simples, e momentos. Longe das preocupações com as horas, com os ordenados, com o preço do bilhete da entrada. E assim continuo a minha caminhada, bebericando o meu café, e silenciosamente tentando que as pessoas se lembrem do quão felizes foram nestes momentos, como se lembram da ultima vez que foram ao Zoo.