Internacionalização

Escrevo devido às constantes partilhas de noticias e posts em todas as outras redes sociais que levantam dúvidas sobre a permanência de estrangeiros no Reino Unido. Não sou uma voz activa em nenhuma frente política e atrevo-me a comentar na ignorância apenas o que penso sobre este assunto que tão me é questionado.

Há cerca de três anos participei numa pequena actividade proporcionada pela União Europeia, onde aí sim tivemos a oportunidade de nos fazermos ouvir através de projectos práticos. Lembro-me de uma das responsáveis frisar que o conceito de emigração estava errado, que quando íamos para o estrangeiro estávamos apenas a contribuir para a nossa internacionalização. Pessoalmente, utilizo e oiço mais vezes o termo ’emigrante’ do que ‘imigrante’, ao invés do que achei ser a mais pura das verdades. Algo que não corresponde à pura das realidades.

Já me aventurei a escrever sobre este tema diversas vezes, hoje arrisco ainda mais. Atrevo-me a dizer que para haver internacionalização é necessário existir aceitação a nível global, algo extremamente difícil de alcançar. Uma espécie de utopia, arrisco-me duplamente a admitir. Porque na realidade o ‘E’ de emigrante, de exterior, também representa Exclusão. O que me leva a outra partilha arriscada. Só se dá valor ao que temos quando perdemos. E o contacto multicultural que grandes cidades, como a de Londres, proporcionam não se limita a aumentar o nosso conhecimento e respeito para com todas as diferentes culturas e raças. Mas sim, a valoriza-las e a definir afincadamente a nossa individualidade cultural. Diminuo o risco e substituo o popular ‘perdemos’ para ‘nos afastamos’ noutra frase que tomava por uma verdade pura. Não tento afirmar que somos mais Portugueses quando deixamos os pastéis de Belém, o ‘fino’ ou a açorda. Tento apenas sublinhar que nos sentimos mais Portugueses quando percebemos o valor da palavra ‘saudade’.

Deveria talvez desmistificar o conceito das tais verdades que tomava como puras. Mas perder-me-ia em todas as suas nuances políticas, sociais, culturais e principalmente, individuais. Porque verdade só há uma: nenhuma verdade é pura. E essa sim, é a mais pura das verdades.

Sempre tentei fugir

Sempre tentei fugir
Dos corpos espalhados, com lábios marcados
Dos corações fechados nos troncos tatuados.
Sempre tentei fugir
De versos inadequados entre olhares tentados
Dos boatos cruzados em sorrisos forçados.
Sempre tentei fugir
Do banco dos julgados, por motivos injustificados
Fingir estar desinteressado por andar isolado.
Sempre tentei fugir
De quem devia ter confiado, após me ter desviado
De me sentir discriminado, de nunca ter duvidado.
Sempre tentei fugir
Das pontes dos cadeados, de virmos a ser separados
De não ser um dos soldados, para a guerra reservados.
Sempre tentei fugir
Dos olhos molhados, dos medos disfarçados
Em campo acumulados, que nos dão como acabados.
Da bala que me atravessa sempre tentei fugir
Mas aqui percebemos deitados, os fados são limitados.

Criança 21

Já me habituei a ser ignorado,
a só me ligarem se for mal-educado.
Hoje só vos peço que desliguem a televisão,
percam a única novela que da morte faz ficção.
Que por um minuto esqueçam as redes sociais,
Prestem atenção às noticias que vão sendo virais,
Guerras, atentados, assaltos, até rixas juvenis
O jornal que não posso pintar é tudo o que diz.
Relembram-me as crianças que não têm comida,
Esquecem as que fogem, e até às que dão vida.
Dizem mal da vizinha, só se preocupam com o pão
À entrada da igreja ignoram os que estendem a mão.
Há tempo para discutir qualquer jogo de futebol,
Menos para comigo jogar em dias de sol.
Com 10 anos já pergunto ‘Para que quero ser adulto?’
Se no futuro a esperança me parece um vulto.
Deito a pistola de plástico ao lixo de olhos lavados,
Os verdadeiros piratas são adultos malvados.
Só queria que aproveitassem melhor o vosso tempo,
Porque palavras e infância leva-as o vento.