Os olhos de quem vai

Nos últimos dois anos, por esta altura, vejo a célebre incerteza no rosto dos que decidem partir. Aquela que a toda à força tentamos mascarar. Estamos a uma viagem de avião da mudança. E ao contrário do que se possa pensar, todos vamos sozinhos e assustados. Da solidão amedrontados.

Os desafios começam cedo e nos dedos não cabem o que temos a perder. Mas na nossa mente vive uma força fusca que acredita ser incontável o que temos a ganhar. Entre a primeira viagem de ida e o primeiro ‘voltei’ os dias não voam, o humor não se fixa e as ilusões, ainda que pequenas, começam a ser questionadas.

Nada é preto no branco. Tudo se combina com o céu londrino e o seu tempo incerto. Estamos no centro do mundo e apesar de crescermos à força, sentimo-nos pequenos perante tanta confusão. Ainda assim, acreditamos. E vamos continuando a acreditar que um dia poderemos voltar. Que a distância vai compensar.

Os olhos de quem vai não são iguais aos de quem fica. Não albergam lágrimas. Neles não peregrina a saudade, mas levam consigo todas as outras emoções. A de pertencer, sem pertencer. A de não nos sentirmos em casa em nenhum lugar. O sentimento familiar, no desconhecido.

Como bons portugueses, temos em nós todos os sonhos do mundo e é por isso que os conseguimos conquistar. E por essa razão, os olhos de quem vai não refletem os de quem volta.

 

 

Onde ainda é tudo a giz

Volto a sentar-me à secretária. Numa sala pequena onde os sinais dos alunos se contam pelos copos de plástico. Um local onde ninguém mete malas no chão, as paredes ainda se decoram com trabalhos em cartolina e onde nos sentimos crianças. Perto do quadro estão espalhados verbos que não perderam a cor. Canetas que presenciam a confusão dos mais novos que diariamente ali passam. E por todo o lado há livros e papéis que denunciam o que aprendo. Lá o tempo corre, mas parece por lá não ter passado. O quadro permanece verde e ainda é tudo a giz. Relembra-me um outro lugar onde aprendi e fui feliz.

De manhã cedo, pela janela de madeira entra o vento em rebuliço. Derruba parte dos copos e as folhas brancas parecem não saber onde aterrar. Ouve-se de perto o bater das asas dos pombos, o sino da igreja que assinala as dez. E sorrio perante o sentimento que tantos poetas colocam em papel. A minha pronúncia certamente arranha os ouvidos de quem tanto sabe. Mas é um local de aprendizagem, um local onde se cometem erros.

São salas como estas que parecem parar no tempo. São salas como estas que ditam por onde passo e o que do mundo penso.

Crónicas de uma Viajante V

Nas minhas últimas viagens, começo os dias com pézinhos de lã. Evitando que os outros acordem, que as escadas ranjam. Fechando a porta devagar. Mas é na correria de um sítio para outro e de transporte em transporte, entre telemóveis e tablets, que esta crónica é escrita.

O primeiro autocarro não pára. Já passa das oito da manhã. Numa cena quase de filme, corro a ponte com uma das vistas mais bonitas de Londres. A mala rosa de arrasto. A primeira reacção é pegar no telemóvel e ligar a quem nos pode ajudar. O vento não ajuda na comunicação, os semáforos das passadeiras parecem não mudar. E assim que acabo de chegar à paragem certa, o outro autocarro acaba com o meu minuto de pânico. Rendida ao alívio, encosto-me ao banco que quase me parece abraçar. Durante meia hora, passeamos pelas ruas Londrinas.

Em Borough Market ainda restam flores caídas. Em London Bridge, temos uma vista privilegiada sob Tower Bridge. As suas bandeiras balançam sincronizadas num céu rosado e ainda a acordar. E mais uma vez acredito estar a ver toda esta cena pura e calmante num ecrã de televisão.

Na rádio passam músicas dos anos 80. Estou prestes a adormecer perante os murais de rua, as mercearias 24h, a mistura da riqueza à pobreza. Os meus olhos caem sobre todos os sem-abrigos que dormem na relva de uma pequena capela. Com o som do sino, sinto estar perante a imagem de um cemitério vivo. A triste realidade que flores não assinalam, que ninguém chora. Fecho os olhos perante a crueza do cenário. Sinto-me prestes a adormecer, a voltar a sonhar com um mundo melhor quando na rádio toca a música que tenho cantado toda a semana “I say hey/ What’s going on?”. Sorrio. E perco-me a pensar em todos os Sensates da série que acabei de ver duas semanas antes. Em como promovem a ideia de estarmos todos unidos, em qualquer parte do mundo.

Nunca perco tempo a descrever como me sinto no aeroporto. Acho desnecessário, por não o conseguir explicar. Mas no aeroporto, tudo passa a correr. Tenho a noção deste post que tenho de escrever, de um outro para a universidade. Mas decido antes estudar francês. Entretenho-me ao ponto de não querer largar as aulas virtuais para comprar água e seguir para a porta de embarque.

Entramos para o avião minutos antes do habitual. Fico feliz ao pensar que chegaremos antes da hora prevista. Mal saberia na altura que isto não viria a acontecer. Já no avião, somos informados numa intensa vaga de calor que o controlo aéreo francês se encontra lotado, não nos dando autorização para levantar voo. Penso na ironia de decidir estudar esta língua no dia em que me apetece amaldiçoá-los.

Finalmente deixamos o Londres chuvoso, para aterrar numa Lisboa de temperaturas desérticas. O aeroporto encontra-se mais que congestionado. Oiço os estrangeiros brotar largos elogios através do que vêem pela janela. Vejo os jovens, em puro encanto, tirar fotos ao estádio verde e branco. Não consigo parar de sorrir, de me encher de orgulho. Por não estar de passagem, por ser de cá. E por essa razão, desta vez ao aterrar, recuso-me a ouvir a mesma música de sempre, limitei-me a deixar tocar a que a solidão acompanhou durante semanas. ‘Todos precisamos de alguém que fique’, esta diz entre o coro infantil. Como sempre, a musica termina no momento em que o avião pára. Mas eu não sou uma dessas pessoas. Eu vou. E volto. E continuarei a voltar, até cá ficar de vez.

Mergulho

Os sete dias antes de embarcar costumam passar devagar. Tão devagar como quando estamos debaixo de água, a tentar atingir a superfície. Os setes dias antes de embarcar são os momentos de aflição. Aqueles segundos que não conseguimos contar. Aqueles milésimos que nos fazem pensar que quanto mais próximo da superfície estamos, menos tempo achamos conseguir aguentar.

É um mistério ainda por explicar como conseguimos mergulhar de cabeça antes de conhecermos o que está submerso. Um ainda maior como voltamos a mergulhar depois de vir ao de cima respirar.

Nas aulas de Escrita Criativa chamamos a este fenómeno ‘A Jornada do Herói’, que se encontra dividida em três fases. Numa primeira este transita a fundo para um novo mundo. Desconhecido, perigoso, longínquo. E toda a segunda fase permanece submersa nesse ambiente e nas suas dificuldades, na sua adaptação, no alcance do seu objetivo. Mas no terceiro e último patamar, ele volta sempre ao mundo inicial. E por lá permanece com novos conhecimentos e uma perspectiva diferente. Esse é o final pelo qual sustemos a respiração. Chegar ao local que anteriormente deixámos para o ajudar a respirar novas ideias, novos projetos. Mesmo que para isso tenhamos que resistir às ninfas, às correntes do humor, às alterações de temperatura. Mesmo que por isso tenhamos de nos habituar aos sons alterados e esganiçados, à falta de luz no fundo, à pele pálida e enrugada, à falta do grosso sal.

Apesar das inúmeras dimensões que a vida pode tomar, ‘A Jornada do Herói’ será sempre uma delas. E é por isto que as histórias que os livros nos contam podem parecer tão reais. Porque efectivamente o são, se nos permitirmos molhar.

Sábado, 3 de Junho 2017

5.39. Tinham sido 4 longas horas de sono. Após aquela que terá sido a noite mais longa em Londres. Mas só consigo pensar neste post, e em como se nalgum momento for publicado, tem de vir em inglês. Em Portugal amanhecemos em Paz, em Londres sei de quem mal pregou olho. Não consigo deixar de pensar que deveria lá estar. Londres tem o encanto de nos tornar seus em pouco tempo. De nos fazer sentir que pertencemos ao seu encanto. Ver a cidade onde vivemos, os sítios onde passamos e dos quais recentemente falámos debaixo de fogo é indescritível. E para quem tenta entender, penoso. Hoje não sei como é que os meus vão para o trabalho. Sei-o bem que vão em segurança, mas temo. Não consigo deixar de temer, pelos sonhos que neles vivem. Sei ainda melhor que dentro de dias, quando lá for obrigada a passar, não acreditarei.
Enquanto aqui oiço pardais a cantar, sei que em Londres despertaria pelo som das ambulâncias, pela constante pergunta ‘Será que aconteceu mais alguma coisa?’, ‘Será que prenderam mais algum?’. As palavras são escassas para descrever a situação, em excesso se com elas tentar remendar o que este atentado provocou. Sou só mais uma portuguesa em Londres, que teve a sorte de estar em Portugal. Sou só mais uma Londrina que está em luto pela cidade que também é sua.

Crónicas de uma Viajante IV

Os olhares são inevitáveis em qualquer viagem. São inúmeros e cruzados, por vezes até roubados mas representam o que de mais puro existe em nós. Sejam de curiosidade, vergonha, medo, aborrecimento, saudade ou felicidade. O dia começa com um deles. O que, ao abrir as janelas, fixo no ar. São quase cinco da madrugada e já é dia. Poucas são as nuvens que se deixam apanhar. Não esperam visitas antes do amanhecer. Parecem corar entre os cochichos das aves e o bocejo dos humanos. Enquanto engulo a torrada e o café sem apetite, tento manter-me calma ao reparar que pessoas já se arrastam pelas ruas, carros pelas estradas, o autocarro que apanharia pelo caminho até ao nosso ponto de encontro. Escrevo um post-it à pressa e fecho por fim a famosa mala rosa. Nas escadas de madeira que tanto rangem, acho os meus pés de veludo e quando fecho a porta num suspiro, dou corda aos sapatos.

O 45 já me esperava na paragem, não me dando tempo para procurar o Oyster. O autocarro entra em movimento antes mesmo de procurar um lugar para me sentar. Poucas são as paragens até ao autocarro que me leva ao aeroporto. Um senhor ainda com vestígios de festa em si, tenta convencer-nos a cantar. Há quem o ignore, quem o mande calar. Quem simplesmente o olhe e troque de lugar. Acaba por sair na paragem antes da minha.

Os quatorze graus que se assumem às seis da manhã, prometem uma temperatura agradável o resto do dia. Eu espero o segundo autocarro. Em meia hora o vento entra e saí pelas mangas largas do meu sobretudo. Os cabelos teimam em não me deixar o rosto. Dois rapazes pedem-me direções. E nestes 30 minutos vale-me o olhar como entretenimento. Os pombos voam por cima das armadilhas humanas. Um senhor passa naquele que é o maior skate que já alguma vez vi. A tudo isto penso tirar fotografia, mas por preguiça ou timidez nunca o faço.

Quando me vejo de novo sentada, encosto a cabeça ao vidro da janela. Entre os que dormem, vêem séries ou ouvem música sento-me eu. Com um livro no colo e uma curiosidade enorme perante os locais por onde passamos. Relembram-me a minha primeira viagem a Londres. A que me fez admitir nunca ser capaz de viver nesta cidade, mas que acabou por me fascinar ao ponto de me contrariar 5 anos depois. A beleza lá continua, o meu fascínio muitas vezes esquecido também. Penso em todas as vezes que me perguntei porque deixei Portugal. Em como não consegui focar-me no que esta cidade me ofereceu. Que ainda me tem para oferecer. As suas paisagens, as suas oportunidades, as suas livrarias, as suas culturas, as pessoas a quem por coincidência me acabou por juntar. O sono bate ao de leve. Mas teimo em não ceder. E não sei se é das primeiras horas da madrugada ou da torrada em seco ou do café que ainda não fez efeito, mas penso em como nada mudaria. Nem mesmo eu. O que me permite sorrir até ao final da viagem, sem ler uma única página do romance que me acompanha.

À chegada ao aeroporto, assusto-me com o número de pessoas na segurança. E por momentos acredito que não encontrarei tempo para o café com que vim a sonhar durante todo o caminho. Engano-me, em vinte minutos encontro-me sentada no banco mesmo em baixo dos ecrãs de informações. O meu café pousado, enquanto arrefece. Um casal português, para o qual tento não olhar, aproxima-se. “Um dia havemos de tirar uma semana de férias e escolher assim para onde vamos. Escolhe, escolhe agora.” ele diz. A companheira desvaloriza, continua a caminhar. Mas eu acredito que o fará. Conheço aquela força no olhar.

Mudo de lugar para finalmente começar a ler. Entre o passar das páginas o tempo voa e enquanto observo diretamente o que me rodeia, sigo para a porta de embarque. É das últimas, estando ainda mais perto das pistas e dos aviões. Conto duas aterragens e três descolagens enquanto ali esperamos pelas escadas para o avião. Vou à janela, como já se sabe ser habitual. E ao levantarmos voo, em ponto, algo me espera.

Vejo a sombra do avião nos campos verdes. Nada citadino. O sol entra pela janela diretamente para o meu rosto, nem as nuvens mais altas o conseguem esconder. A meio do voo reparo como as mais baixas se colam ao relevo das montanhas verdes, provavelmente francesas. E entre as paragens da música para ouvir o piloto falar, oiço uma criança chorar. Onde as nuvens se formam, onde ideias se juntam.

Na pausa da leitura, reparo nas asas. Consigo desvendar pegadas humanas entre o pó acinzentado. Tiro inúmeras fotos a pensar neste mesmo post. Penso em descansar a vista, mas não consigo parar de olhar. Em puro fascínio. Para como as nuvens se amontoam, rasgam e nos seguem. Para como o sol as rompe e aquece. A poucos minutos de aterrar, o piloto fala entusiasticamente sobre perfumes de verão. Quase os consigo cheirar. Mais uma vez todos tiramos os fones para ouvir. As primeiras três palavras apenas.

Lisboa aparece no horizonte. O entusiasmo estrangeiro contagia-nos e sorrimos. Atrás de mim comentam os telhados laranjas lisboetas, como são todos iguais. Riu para comigo, lembrando-me em como me atrevi a pensar o mesmo ao avistar os seus telhados castanhos durante a madrugada. Cheguei a tocar-lhes pelo vidro do autocarro.

À chegada, dois elementos da polícia esperam-nos. Vou no terceiro e último autocarro, apercebendo-me por isso bem mais tarde. Dentro do autocarro há quem se atreva a sentir mal, o calor que me queima através das calças pretas é mais do que estou habituada a aguentar.

É mesmo à saída que oiço os comentários sobre os que foram presos e os que eram procurados. Entre as pessoas que me acompanhavam no voo. Ninguém desconfiou. E a certeza só chegaria se aparecesse no telejornal mais tarde. Como chegou.

Fala-se no perfume. E curiosamente acabamos por comprar um nas poucas horas de passeio em Lisboa.

Sei que posso encostar-me ao vidro, enquanto deixo a capital para trás, e fechar os olhos. Não consigo. Na realidade, talvez a minha vontade de ver a vida seja tanta que não consiga fechar os olhos perante a vista que me apresentam. Na realidade, a minha escrita alimenta-se disto. A minha força encontra-se nesse gesto, o de não deixar fechar os olhos. Para que nada escape ao meu olhar.

 

A cigana

A figura de pano preto

Certamente não deixa enganar

Anda de véu aos dezoito

Mas engana-se quem pensa que vai casar.

 

Ao passar os cães ladram

A vizinha vira o olhar

Ninguém vê o seu cabelo

Nem por sombras o seu pesar.

 

Da fama não se despe

Apenas o luto lhe parece assentar

O resto da sua vida

Não que alguém vá notar.

 

Anos passam entre as horas

De maior calor em que vai passear

Mas o tempo não lhe interessa

Pois essas horas não sabe contar.

 

(Sabe a poeta que a vê

Para o pôr-do-sol se encaminhar

Que quando o seu pano cair

Apenas o branco a poderá tapar).