White Heart Lane

Him

 

Day one. Eight-thirty-seven. I am waiting for the tube. Two more minutes until it arrives. The station is crowded. I look for the usual corner. My eyes land on you. I never saw you before. I would remember. I watch you reading. Your smile holds my attention. Peace is all over your face. Solitude fills mine. I stare for awhile. You do not notice me. The tube arrives. You don’t step on board. I decide to miss it.

 

Day two. Eight-twenty-nine. You are here again. On the same corner. My corner. You do not see me. No one really does. I take two steps to be nearer. The tube will arrive in one minute. You turn. We share a glance. You see my blush. I see your smile. That one is mine. The tube arrives.

 

Day three. Eight-thirty-four. I look for you. The corner is empty. I panic. You are sitting on the bench. We have three minutes. I take a seat too. I feel like a stalker. I should have stayed in my corner. I want to say something. But, one minute to go. You are distracted by your earphones. The tube is late. Still, you don’t realize I am here. We shared the bench. Twenty minutes and eleven seconds fly. The tube arrives.

 

Day four. Eight-forty-one. I decide to talk to you. You see me. I get a sentence together. I mean to mumble it. Ups, there is no time. The tube arrives.

 

Day five. Eight-thirty. I arrive earlier. We both know why. You are here too. Six minutes are enough. You walk in my direction. Twelve seconds it takes. You are almost in front of me. I can detect the colour of your eyes. Hazel. Another tube arrives. People wave from here and there. All the lanes seem to meet here. The tide steps into the middle, the side, the back, the front. It drifts us apart. Three minutes later, I fear. You are not here. Your unique golden hair becomes ordinary. I turn one, two strangers. They are not you. One minute after, I wonder if you exist. It doesn’t matter. The tube arrives. I wait for the second one. Only the bench is here.

 

Her

Day five. Eight-thirty. I come earlier. So do you. It is my last day here. White hart lane station. You do not know yet. We have six minutes. I want to say something. I am going to. I find my way to you. Until I lose it. Your frame. More and more people arrive. Others are going. We are. There are hugs. ‘Where are you?’. Kisses. ‘I love you’. Tears. Bored ‘yes, mom’. Late phone calls. ‘I’m sorry’. A big jumble of lines and lanes. I hardly find mine. Hardly leaving yours.

 

Day four. Eight-forty-one. You finally win some courage. I can see your bravery. For about one minute. I truly believe you are going to talk. But the tube arrives. I curse it.

 

Day three. Eight-thirty-four. You are becoming too obvious. It doesn’t bother me. I forgot my book. Yes, I cursed. My earphones become an excuse. I do not look at you. Ah, you wish! Three minutes. The tube will not take long. You have a seat anyway. I want to take a glance. No. I control myself. We do not share more than this wooden bench. Twenty-three minutes. I forget the seconds, the tube arrives.

 

Day two. Eight-twenty-nine. I know you are here. I turn. To check the time on the board. You are caught peeking. I smile. With your flush, the tube arrives.

 

Day one. Eight-thirty-seven. The tube arrives in three minutes. I still have time to read. First page, I see you arrive. Page two, I feel your eyes on me. By the third, I am checking you out. Soon you won’t remember me. But I wonder. I do wonder if you will be able to wish the life I can imagine. The tube arrives. My hope disappears.

Distance

Dictating where they both are,

Inflaming the quietest soul,

States her presence on a scar,

Tattooed on the guilty bole.

And wishing upon a star,

Not being completely whole,

Caring less about how far,

Echo filled in what she stole.

Crónicas de uma Viajante II

Toco no vidro da já familiar janela de avião, misturando as minhas dedadas com as impressões digitais de desconhecidos. Até nestas que nos definem, somos todos iguais.
Por momentos penso impacientemente que a minha mente me prega uma rasteira e desencontro-me. Da janela do meu quarto deixo-me perder entre os traçados esbranquiçados no céu. Vejo os aviões a partir. Pelo menos três de cada vez. Toco-lhes através do vidro. Relembram-me que estou longe, mas também que posso pertencer onde estes me levarem. Desta vez não me deixo enganar, vou voltar. Esteja de que lado estiver, voa comigo a melancolia que durante o dia se perdia nos transportes públicos. De autocarro até à estação de metro de Elephant and Castle, parando em Trafalgar para recolher um livro da Waterstones, a caminho de Oxford Circus onde almoçaria. Mais tarde viria a trocar de linha em Piccadilly. Pelo menos 10 quilos levava em bagagem de mão, ignora-se tudo o que levamos dentro de nós. Pelo menos tenta-se. Demasiadas emoções para uma bagagem só. Dentro de duas horas uma despedida, dentro de 5 uma quebra na minha rotina Londrina.
É no metro a caminho de Heathrow Terminal 3 que reparo num senhor atento a tudo o que o rodeia. Escreve num pequeno caderninho cheio de datas e pequenas frases. Sei o que faz. Várias vezes me deixo trair pela tentação de fazer o mesmo. Possivelmente sorrio, sem malícia. Encostada ao vidro mesmo ao seu lado, tento decifrar a sua caligrafia sem que se aperceba. Ao tentar distrair-me concentro-me nas mãos constantemente sujas. Sei que no dia seguinte terei dores nos braços de carregar a mala em todas as escadas das diferentes estações de metro. Há três meses não sabia como iria aguentar estar fora, mas quando estamos de volta parece que passaram a voar. Parece que em Portugal o Natal se cola com a Páscoa e o Verão. Ingenuamente, e sem nos apercebermos, acreditamos que três meses não os separam. Que não nos separam.
Acabo por escrever no aeroporto, sem qualquer novidade. Aproveito o último latte de baunilha, enquanto respondo às mensagens de quem viaja sempre comigo. Oiço a música de acordo com o movimento das pessoas nas cadeiras e sinto-me finalmente em paz. Talvez a música me faça acreditar que a minha vida pertence a um plano, a um destino tão desejado que se tornará realidade. Dizem que o tempo passa a correr quando estamos em boa companhia e no aeroporto comigo certamente foge.
Algo muda assim que entro no avião. Mesmo ainda antes de entrar, acho. Das cadeiras perto da porta de embarque não oiço português, falo com a minha mãe ao telemóvel e quase verto uma lágrima ao ver um avião da TAP descolar. O céu ainda não escureceu totalmente, mas não me concentro no que está atrás do vidro que sujo com as minhas palmas. Nas colunas ouve-se constantemente a mesma mensagem da funcionária do aeroporto que minutos antes me levou a mala para o porão.
Quero descolar. Quero encostar-me a esta mesma janela. Quero ler e escrever e ouvir música, mas sinto-me irrequieta. Enquanto o chá e batatas fritas continuam a ser vendidas, as pessoas que se lembram de ir à WC levam com os meus olhares de desaprovação. E apesar de parecer mais longa que o normal, fazemos a viagem em metade do tempo previsto.
O mapa com o avião nos televisores aumenta a minha ansiedade. Será que escolhi o lugar certo? À esquerda para Londres, à direita para Lisboa de maneira a ter a melhor vista possível. Quero ver o estádio, faz parte da rotina trimestral. E finalmente, começamos a avistar Lisboa. Procuro com o olhar o Cristo Rei, que me guia através da sua posição. Descanso. Estou no lugar certo.
A senhora atrás de mim no avião chora devagar. Em silêncio. Num silêncio que eu compartilho. Fazemos parte de uma nova geração de emigrantes achados a cada país que visitamos, cujas histórias se perdem entre rotas aéreas unidas pela identidade portuguesa da saudade. Tal como compartilho a experiência do senhor que vi no metro. E que sei que escrevia sobre mim, sobre a vista, sobre quem estava na carruagem e do que falavam, como eu agora escrevo dele.
Quando aterro, mergulhada na letra da música habitual, expiro. Sinto que sustive o ar durante muito tempo e que respiro agora pela primeira. E tento não pensar se parei de respirar quando saí de Londres ou se quando para lá fui.
A minha viagem começa às onze e meia da manhã quando saio de casa. Aterro às onze da noite. Mas a viagem acaba apenas quando entro na minha outra casa. Não são mais de mil quilómetros que as separam, mas sim 14 horas de toques no vidro das janelas.

Wednesday, March 22nd 2017

When I took a snap of London’s view from my classroom window my lecture rambled about “Memory Talk”. Nothing foresaw what would happen in a few hours. And even though I’m sure that I will never forget this day, I’m not sure what I’ll remember about it.

From the three groups of teenagers leaving my street’s hostel on their way to Southbank.

The several policemen I saw walking up and down without being able to count. Around 8, I believe.

The first laugh of disbelief when the rest of the world assumed it was terrorism.

The feeling of being so far when I was so close.

The calls and messages I expected, the ones I didn’t expect.

The cutting sound of helicopters round and round.

The ambulances and blue sirens’ cars putting everyone’s heads up. Desperately looking where they’re heading to.

To Death.

Today we learned that we only start having memories after acquiring language, and they are only recalled when we’re talking to someone. However, it’s the absence of words that will stay with me. The sight of everyone leading their ordinary lives in unordinary silence. A forced attempt of not remembering today the very next day.
And when you have no words you rely on other’s.

‘This is the way the [day] ended, Not with a bang but a whisper’ (T.S Eliot, 1925)