As palavras bebem-se

As palavras bebem-se,

as que correm pelas ribeiras

que se encontram no mar

vão banhando quem deixa

e os que não se querem molhar.

 

Do gargalo da garrafa

entre folhas de jornais

pelo copo de cristal

as palavras bebem-se

para escrever os finais.

 

Assim se perdem,

assim apelam à necessidade,

As palavras bebem-se

e conquistam-nos

pela sua naturalidade.

 

São 60% de nós

entram-nos diretamente

nas mais simples células

hidratam-nos de prazer

não sabemos ser sem elas.

 

As palavras bebem-se

e são dadas a beber

Matam a sede

De quem tem sede de saber

São a mais primária forma

de continuar a viver.

 

 

 

A cigana

A figura de pano preto

Certamente não deixa enganar

Anda de véu aos dezoito

Mas engana-se quem pensa que vai casar.

 

Ao passar os cães ladram

A vizinha vira o olhar

Ninguém vê o seu cabelo

Nem por sombras o seu pesar.

 

Da fama não se despe

Apenas o luto lhe parece assentar

O resto da sua vida

Não que alguém vá notar.

 

Anos passam entre as horas

De maior calor em que vai passear

Mas o tempo não lhe interessa

Pois essas horas não sabe contar.

 

(Sabe a poeta que a vê

Para o pôr-do-sol se encaminhar

Que quando o seu pano cair

Apenas o branco a poderá tapar).

Relógio de Rua

ELE                                                                                                   ELA

Os ponteiros já apontam                                  O relógio da rua já acerta
A hora de maior pesar,                                      O que tento não despertar,
Quando a solidão chega                                     Mas ao desviar as cortinas,
E não deixa descansar.                              Todas as ilusões parecem espreitar.
Encosto o seu peso                                               A testa cedo descansa
À árvore que costumas galar                             Na janela que uso para sonhar,
Fogem-lhes frios prateados                              Os olhos caem sob a árvore,
Aqueles de que costumavas falar.         Onde uma sombra costumo imaginar.
Procuro as cortinas azuladas                              E aqueles fios prateados
Fugindo do teu vago olhar,                                  De que tanto costumava falar,
A luz do quarto abraça a silhueta,                     Não passava de esperança
Que todas as noites tento decorar.                    Da tua atenção captar.
Vagueias em pensamentos                                   Abandono a leve sombra,
Que tanto desejava adivinhar,                             Tal como te deveria deixar,
Sei que não tocam em mim,                                 Revela-se mais que difícil,
E que bem longe deveria estar.           Sabendo que também não estás a tentar

 

Sempre tentei fugir

Sempre tentei fugir
Dos corpos espalhados, com lábios marcados
Dos corações fechados nos troncos tatuados.
Sempre tentei fugir
De versos inadequados entre olhares tentados
Dos boatos cruzados em sorrisos forçados.
Sempre tentei fugir
Do banco dos julgados, por motivos injustificados
Fingir estar desinteressado por andar isolado.
Sempre tentei fugir
De quem devia ter confiado, após me ter desviado
De me sentir discriminado, de nunca ter duvidado.
Sempre tentei fugir
Das pontes dos cadeados, de virmos a ser separados
De não ser um dos soldados, para a guerra reservados.
Sempre tentei fugir
Dos olhos molhados, dos medos disfarçados
Em campo acumulados, que nos dão como acabados.
Da bala que me atravessa sempre tentei fugir
Mas aqui percebemos deitados, os fados são limitados.

Insónia das três

Na insónia das três oiço arranhar,

inseguranças bastardas que tentei camuflar.

Cruzam-se os medos, o fusco do luar,

da solidão surge, ainda que lenta,

o dia transformado em noite pardacenta.

O instinto como arma, não mata mas tenta

passar de presa a predador, de demónios caçador.

Das testas enrugadas, disparam memórias apagadas

dos ombros descaídos, ferozes anjos arrependidos

abocanham, agarram a réstia de sobrevivência,

a cabeça sempre caiu na armadilha da abstinência.

Por entre as veias já gatinha a crueldade mal gasta,

em suor e cansaço a minha sanidade se arrasta.

Rendo a felicidade, a minha paz ao vento,

nos ouvidos resta o bater de um coração violento.

Voltam os sentimentos felinos, revejo-os atrás dos cardos,

nem as memórias de infância já servem de dardos.

Deixo esvair lentamente a minha humanidade,

sem conseguir adormecer começo a perceber,

à noite, todos os gatos são pardos.