Shakespeare & Co.

Sempre que me dedicava a pesquisá-la, desconfiava que o sonho espreitava ali. Hoje foi dia do realizar.
Chovia e havia fila para entrar. Cá fora há luzes, ainda que apagadas, livros usados e frases de encantar. Um caricatura de Wolf espreita do primeiro andar, um dos seus livros regala os olhos dos que esperam na montra do rés-de-chão. Pela primeira vez antes de entrar numa livraria. Não sei o que esperar. Na internet não há fotos do seu interior e pelos vidros de fora pouco se vê.
Assim que entro, deparo-me com o que mais adoro. Hemingway e o resto da Lost Generation na sua primeira parede. E não poderia deixar de ser assim, sendo Hemingway um amante dedicado a Paris.

Livros novos de ficção preenchem todo o espaço por onde toda a gente quer navegar, e através dos escadotes usados alcançar. Há salas e mais salinhas sem parar. Algumas estantes ameaçam cair, mas ali permanecem, paradas no seu tempo. A madeira das estantes é velha e quase que a oiço ranger. Mas são apenas as escadas, espelhadas num espelho que nos chama para o andar da poesia.
Tento esquecer o peito palpitante e a respiração ofegante que o pensamento traz, “Quero ficar aqui.” E fotografar o que não pode ser fotografado. Decorar o que sei que nunca poderia ser decorado, sem ser explorado mais do que uma vez.
Há chegada do primeiro andar, há pessoas nas almofadas velhas e a janela branca aberta, deixa entrar a luz que revela o pó no ar. E com ele um silêncio de maravilha que não se deixa assentar. Avisto outro espelho, e quero-me fotografar. Como fundo ficariam todos os livros usados, rasgados, com capas duras ou de cabedal. E eu quero. Ficar aqui.
Perdida no meu próprio fascínio, penso em como será difícil manter todos aqueles livros imaculados ou usados em perfeita condição num local como aquele. Que parece húmido e é cavernoso.
Os meus pais esperam-me. Ainda à chuva. E por isso, olho-me uma última vez ao espelho e deparo-me com um sorriso genuíno. Acabaram-se as desconfianças, o sonho mora aqui.

Para Sylvia Plath

Reunimo-nos para celebrar Sylvia Plath. E havia perguntas dentro de mim que procuravam ser respondidas. Não porque não lhes achasse resposta, mas porque pareciam demasiado vagas perante a imensidão de tamanho alento. O que tem a sociedade do século XXI a aprender com Sylvia Plath? O que pode ter tanto para dizer a mulher de um dos poetas mais famosos e acarinhados do Reino Unido? Que impacto podem ter os pensamentos de uma artista tantos anos depois?

Minutos antes do começo, reflito. Começámos este festival a homenagear o poeta que o criou há precisamente 50 anos. Encerramos o mesmo com uma homenagem a uma outra poeta. Há poeta que já era Mulher, antes de ser mulher de Hughes. Há menina de 7 anos que escreveu uma carta com cores ao pai. Há jovem que detestava o tempo, a comida e os homens ingleses. Há depressão que encontrou em si, e que partilha com a humanidade.

Fui das primeiras a entrar na sala. Com os que estavam prestes a chegar partilhava a silenciosa frustração da palestra ser tão longa. E, mais tarde, de ser tão curta. É de arrepiar, ver uma sala encher com homens e mulheres de todas as idades e estilos. A mesma sala que não se encheu para a maior celebração de poesia mundial, completou-se pelo trabalho de uma só poeta. A Americana adotada, e largamente admirada, do Reino Unido.

É a filha destes dois poetas quem começa o evento. E não consigo disfarçar a sensação de estar num velório, ou até mesmo num funeral. Os convidados e oradores expandem-se no preto. As emoções trespassam as palavras cuidadosamente escolhidas para a ocasião. Existe um pesar comum na sala. Um sentimento individualista e impossível de explicar a não ser pela leitura de Plath. Quando Frida entra em palco, a surpresa é geral. Entre o que deveria ser dito, e previamente escrito, existem correções pessoais. Cumprindo o seu papel de filha, Frida defende o seu pai das recentes polémicas reveladas nas cartas de sua mãe. Os seus olhos ainda brilham de angústia e orgulho, quando nos revela que acredita convictamente que os seus pais, pelo seu talento e trabalho, estarão eternamente casados até mesmo após as suas mortes. Com ela, todos acreditamos e quase suspiramos ‘amém’. Assim, todos os que vieram movidos pela carreira de Plath, mas mais ainda pelos mais recentes factos, silenciaram a sua curiosidade por respeito aos que prolongam a mortalidade destes dois poetas. Numa noite em que os dois passaram de figuras míticas a comuns imortais.

É fácil, tão fácil, encontrarmo-nos nas palavras de Plath. A mulher que encontra uma palavra sempre que respira, um verso para cada suspiro seu. A poeta que estende em papel de carta o que a alma tenta esconder da mente, o que corta a respiração pela vida. E perante a frontalidade com que aborda a monstruosidade natural, Plath expõe o que temos em comum e sentimos ser só nosso. E é assim que a nós, leitores, ‘our loving Sivvy’ nos tira o fôlego.

Terminamos com uma gravação da própria a ler um dos seus mais famosos poemas, Spinster. E apesar das gargalhadas, o pesar ainda murmura. Para muitos uma vida inteira não é suficiente. Para Sylvia Plath, 30 continuam a sobrar.

As palavras bebem-se

As palavras bebem-se,

as que correm pelas ribeiras

que se encontram no mar

vão banhando quem deixa

e os que não se querem molhar.

 

Do gargalo da garrafa

entre folhas de jornais

pelo copo de cristal

as palavras bebem-se

para escrever os finais.

 

Assim se perdem,

assim apelam à necessidade,

As palavras bebem-se

e conquistam-nos

pela sua naturalidade.

 

São 60% de nós

entram-nos diretamente

nas mais simples células

hidratam-nos de prazer

não sabemos ser sem elas.

 

As palavras bebem-se

e são dadas a beber

Matam a sede

De quem tem sede de saber

São a mais primária forma

de continuar a viver.

 

 

 

A cigana

A figura de pano preto

Certamente não deixa enganar

Anda de véu aos dezoito

Mas engana-se quem pensa que vai casar.

 

Ao passar os cães ladram

A vizinha vira o olhar

Ninguém vê o seu cabelo

Nem por sombras o seu pesar.

 

Da fama não se despe

Apenas o luto lhe parece assentar

O resto da sua vida

Não que alguém vá notar.

 

Anos passam entre as horas

De maior calor em que vai passear

Mas o tempo não lhe interessa

Pois essas horas não sabe contar.

 

(Sabe a poeta que a vê

Para o pôr-do-sol se encaminhar

Que quando o seu pano cair

Apenas o branco a poderá tapar).

Fim

‘Fim dos loucos contentes
Das fotos que mostram os dentes.
Das roupas claras sob a pele,
De dar amor que nos repele.

Fim da vida sem limites
De tentar pertencer às elites.
Da terapia em forma musical,
De um futuro feito na horizontal.

Fim das noites sonolentas
De solucionar com águas bentas.
De acreditar que eu sou um erro,
De ouvir que venho do desterro.’

Nesta mesma página apaga-se o cigarro
Já na adolescência era considerado bizarro.
Ignoro, imploro: deixem-me ser assim,
Só quero ter direito a escolher o meu fim.

Malmequer

Começo por ficar chateada sem querer

As vossas mãos dadas ainda são difícil de ver,

Partilhando dos mesmos tolos sorrisos

Como se tivessem descoberto novos paraísos.

Saber que coras com os mesmos elogios

Dados por outros lábios que não os meus frios,

E tanto que precisava de aquecer os meus

Mas nestas noites já não sou o teu último adeus.

E o exagero de perfume quando se acham

Entra, corrói quando à minha beira passam,

Mais difícil só deitar na nossa cama vazia,

Sabendo que ela te verá nas primeiras horas do dia.

Hoje sei e admito que nunca foste tão feliz,

E apesar de ainda te amar, sempre foi isso que quis,

Tento engolir todos os ‘Quero-te de volta’

Mas não consigo esconder que me causa revolta.

Desfolho-me destas e todas as outras lembranças

Enquanto em lágrimas vos vejo trocar alianças

Nenhuma pétala resta deste malmequer

Para grande alegria de quem bem me quer.