Monsanto

Para lá chegarmos fizemos o caminho que o fogo destruiu. E da janela do autocarro já era possível compreender que iriamos bem para o topo daquele mundo rochoso.

Queria ter-me sentado à janela de madeira. Encostada à pedra. Escondida entre as cortinas brancas na brisa matinal entrelaçadas.  E de joelhos abraçados ao peito, com uma caneta e papel na mão não parar de escrever o que via para além do telhado. Olhar o horizonte, os montes, a mistura dos dois reinos e dos seus limites. Do sol, das nuvens, do verde que se mantém. Sem saber onde um termina e o outro começa. Se algum chega a terminar. Sem questionar porque se unem. Tudo isto gostava de ter fechado nas páginas do pequeno caderno azul. Mas tempo não o havia. Apenas o sino, a criação humana, o conseguia contar. E tal como o ambiente que nos envolvia, as sessões e os seus temas entrelaçavam-se. As nossas vozes ecoavam pelas íngremes ruas. À noite, entre os penedos a sua geologia cochichava ao ver-nos passar. E da varanda onde podemos admirar as estrelas, apontam-se para as luzes vermelhas ao longe que não conseguimos decifrar.

E dos 0 aos 114 anos, conhecido pelas míticas Marafonas, permanece a alma jovem da D.Alice, as histórias da D. Edite, o som dos adufes- A aldeia mais Portuguesa de Portugal. Mas foi nos suspiros dos penedos que esta voz se foi encontrar, depois do galo de prata, que enchia os seus olhos, se virar.

 

 

Internacionalização

Escrevo devido às constantes partilhas de noticias e posts em todas as outras redes sociais que levantam dúvidas sobre a permanência de estrangeiros no Reino Unido. Não sou uma voz activa em nenhuma frente política e atrevo-me a comentar na ignorância apenas o que penso sobre este assunto que tão me é questionado.

Há cerca de três anos participei numa pequena actividade proporcionada pela União Europeia, onde aí sim tivemos a oportunidade de nos fazermos ouvir através de projectos práticos. Lembro-me de uma das responsáveis frisar que o conceito de emigração estava errado, que quando íamos para o estrangeiro estávamos apenas a contribuir para a nossa internacionalização. Pessoalmente, utilizo e oiço mais vezes o termo ’emigrante’ do que ‘imigrante’, ao invés do que achei ser a mais pura das verdades. Algo que não corresponde à pura das realidades.

Já me aventurei a escrever sobre este tema diversas vezes, hoje arrisco ainda mais. Atrevo-me a dizer que para haver internacionalização é necessário existir aceitação a nível global, algo extremamente difícil de alcançar. Uma espécie de utopia, arrisco-me duplamente a admitir. Porque na realidade o ‘E’ de emigrante, de exterior, também representa Exclusão. O que me leva a outra partilha arriscada. Só se dá valor ao que temos quando perdemos. E o contacto multicultural que grandes cidades, como a de Londres, proporcionam não se limita a aumentar o nosso conhecimento e respeito para com todas as diferentes culturas e raças. Mas sim, a valoriza-las e a definir afincadamente a nossa individualidade cultural. Diminuo o risco e substituo o popular ‘perdemos’ para ‘nos afastamos’ noutra frase que tomava por uma verdade pura. Não tento afirmar que somos mais Portugueses quando deixamos os pastéis de Belém, o ‘fino’ ou a açorda. Tento apenas sublinhar que nos sentimos mais Portugueses quando percebemos o valor da palavra ‘saudade’.

Deveria talvez desmistificar o conceito das tais verdades que tomava como puras. Mas perder-me-ia em todas as suas nuances políticas, sociais, culturais e principalmente, individuais. Porque verdade só há uma: nenhuma verdade é pura. E essa sim, é a mais pura das verdades.