Monsanto

Para lá chegarmos fizemos o caminho que o fogo destruiu. E da janela do autocarro já era possível compreender que iriamos bem para o topo daquele mundo rochoso.

Queria ter-me sentado à janela de madeira. Encostada à pedra. Escondida entre as cortinas brancas na brisa matinal entrelaçadas.  E de joelhos abraçados ao peito, com uma caneta e papel na mão não parar de escrever o que via para além do telhado. Olhar o horizonte, os montes, a mistura dos dois reinos e dos seus limites. Do sol, das nuvens, do verde que se mantém. Sem saber onde um termina e o outro começa. Se algum chega a terminar. Sem questionar porque se unem. Tudo isto gostava de ter fechado nas páginas do pequeno caderno azul. Mas tempo não o havia. Apenas o sino, a criação humana, o conseguia contar. E tal como o ambiente que nos envolvia, as sessões e os seus temas entrelaçavam-se. As nossas vozes ecoavam pelas íngremes ruas. À noite, entre os penedos a sua geologia cochichava ao ver-nos passar. E da varanda onde podemos admirar as estrelas, apontam-se para as luzes vermelhas ao longe que não conseguimos decifrar.

E dos 0 aos 114 anos, conhecido pelas míticas Marafonas, permanece a alma jovem da D.Alice, as histórias da D. Edite, o som dos adufes- A aldeia mais Portuguesa de Portugal. Mas foi nos suspiros dos penedos que esta voz se foi encontrar, depois do galo de prata, que enchia os seus olhos, se virar.

 

 

Mergulho

Os sete dias antes de embarcar costumam passar devagar. Tão devagar como quando estamos debaixo de água, a tentar atingir a superfície. Os setes dias antes de embarcar são os momentos de aflição. Aqueles segundos que não conseguimos contar. Aqueles milésimos que nos fazem pensar que quanto mais próximo da superfície estamos, menos tempo achamos conseguir aguentar.

É um mistério ainda por explicar como conseguimos mergulhar de cabeça antes de conhecermos o que está submerso. Um ainda maior como voltamos a mergulhar depois de vir ao de cima respirar.

Nas aulas de Escrita Criativa chamamos a este fenómeno ‘A Jornada do Herói’, que se encontra dividida em três fases. Numa primeira este transita a fundo para um novo mundo. Desconhecido, perigoso, longínquo. E toda a segunda fase permanece submersa nesse ambiente e nas suas dificuldades, na sua adaptação, no alcance do seu objetivo. Mas no terceiro e último patamar, ele volta sempre ao mundo inicial. E por lá permanece com novos conhecimentos e uma perspectiva diferente. Esse é o final pelo qual sustemos a respiração. Chegar ao local que anteriormente deixámos para o ajudar a respirar novas ideias, novos projetos. Mesmo que para isso tenhamos que resistir às ninfas, às correntes do humor, às alterações de temperatura. Mesmo que por isso tenhamos de nos habituar aos sons alterados e esganiçados, à falta de luz no fundo, à pele pálida e enrugada, à falta do grosso sal.

Apesar das inúmeras dimensões que a vida pode tomar, ‘A Jornada do Herói’ será sempre uma delas. E é por isto que as histórias que os livros nos contam podem parecer tão reais. Porque efectivamente o são, se nos permitirmos molhar.

E depois veio o fogo

Após a glória no futebol e a celebração da canção, sabíamos finalmente o que significava ser ‘a nação valente e imortal’.

E depois veio o fogo.

E a destruição.

E o medo.

E com ele a coragem dos bombeiros que deixaram os braços das suas famílias para ir salvar as de desconhecidos. Testemunharam o inferno, enfrentaram-no de frente.

E nestas alturas de maior pesar pergunto-me porque escrevo. Perante determinadas situações palavras não parecem chegar. Um ‘obrigado’ não é suficiente, ‘os meus pêsames’ nada muda. Em poucos dias foram dois os incêndios que aterrorizaram os portugueses, quer em Portugal quer no Reino Unido. E entre as cinzas do que desapareceu, ficaram as meras palavras, os videos, as fotografias de uma dor que um incêndio extinto deixará bem acesa nas nossas memórias.

Dois incêndios, dois países. E hoje, porque os amamos, estamos de luto pelos dois. E as palavras que pelas redes sociais lhes chegam, continuam a não chegar.

Sábado, 3 de Junho 2017

5.39. Tinham sido 4 longas horas de sono. Após aquela que terá sido a noite mais longa em Londres. Mas só consigo pensar neste post, e em como se nalgum momento for publicado, tem de vir em inglês. Em Portugal amanhecemos em Paz, em Londres sei de quem mal pregou olho. Não consigo deixar de pensar que deveria lá estar. Londres tem o encanto de nos tornar seus em pouco tempo. De nos fazer sentir que pertencemos ao seu encanto. Ver a cidade onde vivemos, os sítios onde passamos e dos quais recentemente falámos debaixo de fogo é indescritível. E para quem tenta entender, penoso. Hoje não sei como é que os meus vão para o trabalho. Sei-o bem que vão em segurança, mas temo. Não consigo deixar de temer, pelos sonhos que neles vivem. Sei ainda melhor que dentro de dias, quando lá for obrigada a passar, não acreditarei.
Enquanto aqui oiço pardais a cantar, sei que em Londres despertaria pelo som das ambulâncias, pela constante pergunta ‘Será que aconteceu mais alguma coisa?’, ‘Será que prenderam mais algum?’. As palavras são escassas para descrever a situação, em excesso se com elas tentar remendar o que este atentado provocou. Sou só mais uma portuguesa em Londres, que teve a sorte de estar em Portugal. Sou só mais uma Londrina que está em luto pela cidade que também é sua.