Canalizações

Uma das grandes vantagens de ser escritora é saber sempre como procurar o que sentimos. Algo que se revela necessário no processo da escrita. Metermos as mãos dentro de nós e retirarmos para o papel, aquilo que não nos deixa viver, para que na arte viva.

Como se todas as emoções rolassem em canalizações. As minhas andam sempre rotas. E eu não sou canalizadora. Mas quando algo pinga em coração duro, tanto bate até que fura. E lá tenho de procurar a torneira certa a fechar. Questiono. E quase sem me aperceber lá desaperto memórias ainda frouxas, mesmo que o tempo já se tenha encarregado das enferrujar. Entupidas estas duas torneiras que dizem espelhar a alma, nunca ficam. Palpo cano a cano. Para descobrir qual desagua a mágoa desta vez. Mas eles estão todos ligados, e eu perco-me. Deixo-me perder a contar buraquinhos e goteiras, mexendo-lhes, ampliando-os. E só depois, remendando-os. E mais não há dedos para tanto furo. Mas eu não sou canalizadora. E não tarda eles voltam a rebentar. A gotejar, a chatear. Água mole em pedra dura. Felizmente, a infelicidade e a falta de jeito são as ferramentas perfeitas para uma escritora. Que inundação se daria, se me soubesse amanhar.

Criança 21

Já me habituei a ser ignorado,
a só me ligarem se for mal-educado.
Hoje só vos peço que desliguem a televisão,
percam a única novela que da morte faz ficção.
Que por um minuto esqueçam as redes sociais,
Prestem atenção às noticias que vão sendo virais,
Guerras, atentados, assaltos, até rixas juvenis
O jornal que não posso pintar é tudo o que diz.
Relembram-me as crianças que não têm comida,
Esquecem as que fogem, e até às que dão vida.
Dizem mal da vizinha, só se preocupam com o pão
À entrada da igreja ignoram os que estendem a mão.
Há tempo para discutir qualquer jogo de futebol,
Menos para comigo jogar em dias de sol.
Com 10 anos já pergunto ‘Para que quero ser adulto?’
Se no futuro a esperança me parece um vulto.
Deito a pistola de plástico ao lixo de olhos lavados,
Os verdadeiros piratas são adultos malvados.
Só queria que aproveitassem melhor o vosso tempo,
Porque palavras e infância leva-as o vento.