Crónicas de uma Viajante III

Cinco para a uma. Madrugada. Hora do check-in. Sem dar importância à coincidência, apercebo-me que voei para Londres a 20 de Novembro e que agora, cinco meses depois, repetiria o feito no mesmo TP368 do passado. Sempre no meu lugar predilecto 17F.  Contra a superstição de alguns, registo agora o meu 13º voo entre as cidades de Lisboa e Londres. A minha viagem, por mais que não queira ir, começa aqui. 36 horas antes.

Fecho os olhos. Nasce uma revolução. A das despedidas, a de não ser certo quando posso voltar. Na insónia da uma encontro tempo para pensar. Continuo sem saber a que emoção estas viagens se podem associar. Se podem ser relacionadas apenas a uma. Se há palavra que descrevam as tais incógnitas é Incerteza. Todas as oportunidades que Londres me dá começam a ser repensadas, quando começam a parecer ideias borradas. Na manhã em que parto só me é certo que por mais enjoos e ardor nos olhos que ir embora me dê, ouvir a palavra aeroporto contagia-me de uma inexplicável paz interior.

Fecho os olhos para abraçar o sol. Desta vez ignoro a cidade de Lisboa enquanto atravessamos a ponte Vasco da Gama. Na verdade, ignoro tudo. Entre as conversas com a Mãe, escondo a noção de para onde seguimos. Em poucos minutos sou obrigada a decidir. A possibilidade de dar ouvidos à emoção que me pede para ficar é abalada por um fechar de olhos forçado pela razão. Não posso perder este voo. Foi a minha provação. O momento em que a minha vida adulta tomou as rédeas.

Fazem-se apostas de quem poderá ir no mesmo voo que eu. Das colunas Imagine Dragons gritam ‘Believer’, mordo um sorriso e fecho os olhos para esconder as lágrimas.

Ignorei as despedidas até já ser tarde e por isso não as escrevo aqui, mas desta vez não as escondi. Os olhos estavam pela primeira vez abertos perante a realidade de partir.

Prestes a embarcar, o nó do estômago substitui o da garganta. Todos os ‘gostos de ti’ e ‘obrigados’ têm de ser ditos, relembrados. Nada pode ficar por dizer, felizmente a distância apaga mas também ajuda a apegar.

Mesmo antes de chegar à porta de embarque correta espreito um dos ecrãs informativos. O meu primeiro ‘Last call’ nem me dá tempo dos olhos esbugalhar. Corro à velocidade que a minha mala permite. Na porta de embarque poucos são os que se encontram na fila. No autocarro não passamos de 20. E assim que entramos em movimento procuro rapidamente o estádio com o olhar. Encosto-me ao banco num suspiro, fecho os olhos ao de leve, não vão as lágrimas cair. Já posso partir.

Cinco para o meio dia. Tarde. Prevejo um atrasado, as rodas levantam já o Big Ben bate a uma. As nuvens dão-nos tréguas e vemos Portugal quase de Lisboa a lés. Um enredo de verdes e acastanhados em círculos e caminhos. As pálpebras pesam, mas não consigo deixar de olhar. Fecho os meus espelhos da alma assim que atingimos as nuvens. Ainda consigo avistar uma a formar.

O bip desperta-me para milhas do meu estado de transe. O comandante fala-nos: atingimos a altitude de cruzeiro, 11 600 metros.

No meio do bom tempo somos apanhados na turbulência. Desta nada se vê. Nem nuvens, nem ventos. Apenas movimentos bruscos da asa. 3 minutos de olhares pela janela desdobram-se numa infinidade de minutos. Foco-me na vista. Lá em baixo, o mar relembra-me um céu noturno de constelações, devido aos seus pontos e véus esbranquiçados. Geograficamente sei que país sobrevoamos, mas as suas formas não formam mapas na minha mente.

Concentro-me nas horas que o computador marca enquanto beberico o habitual café no copo de papel com a calçada portuguesa estampada. Em todos os voos penso em escondê-lo na mala. Hoje não é exceção, continuo a pensá-lo e a entregá-lo ao saco preto. 14:33. Estou a uma hora de aterrar, a uma e meia de descolar.

Tento recuperar as horas de sono perdidas. Penso, não consigo deixar de pensar em como não suportava o calor do meu quarto em Portugal esta manhã. Espreito pela janela do quarto inglês. O céu que atravessei há apenas umas horas escurece de uma só vez. Ficaria grata se a chuva caísse nessa mesma noite. Como sempre o tempo tende a contrariar-me. Em cima da secretária Portuguesa ficou a garrafa de água comprada no aeroporto Londrino, nesta pousa água da Serra da Estrela comprada no de Lisboa. 20 dias separam a compra destas garrafas, o símbolo da minha chegada.

Antes de acabar de editar este post olho com curiosidade para as horas no ecrã do portátil que regista todas estas aventuras. 00:55. Para variar atraso-me a pontuar, bate a uma da manhã de momento. Talvez seja apenas mais uma coincidência, mas quem como eu olhar, irá em algo mais acreditar. Com esta conclusão fecho os olhos, para finalmente descansar.

Números

É naqueles dias em que o sol não se esconde, e me afaga o rosto que me vejo a perguntar porque não gosto de números. Dias raros, esses, em que não sou eu própria a esconder-me da controversa questão, ‘Como é viver no estrangeiro?’. De início, revela-se fácil responder com um ‘é ter tudo em duplicado’. Duas casas, duas escovas de dentes, dois grupos de amigos, duas famílias, duas línguas. Nas conversas enleiam-se os de cá e os de lá, e nas duas línguas vão tropeçando o país de sangue e o do coração… Difícil é explicar que se alberga o dobro das saudades, que se carregam malas com o dobro do bacalhau, sabendo que não sobra até ao Natal; que o que nos falta do país onde não estamos no momento sobra em duas ou três palavras perdidas da sua ‘mother language’. Difícil é explicar, e aceitar, que só podemos ser metade de cada vez. E assim me sirvo dos números sabendo que só os 110 mil que com eles vivem conseguem realmente entender.