Shakespeare & Co.

Sempre que me dedicava a pesquisá-la, desconfiava que o sonho espreitava ali. Hoje foi dia do realizar.
Chovia e havia fila para entrar. Cá fora há luzes, ainda que apagadas, livros usados e frases de encantar. Um caricatura de Wolf espreita do primeiro andar, um dos seus livros regala os olhos dos que esperam na montra do rés-de-chão. Pela primeira vez antes de entrar numa livraria. Não sei o que esperar. Na internet não há fotos do seu interior e pelos vidros de fora pouco se vê.
Assim que entro, deparo-me com o que mais adoro. Hemingway e o resto da Lost Generation na sua primeira parede. E não poderia deixar de ser assim, sendo Hemingway um amante dedicado a Paris.

Livros novos de ficção preenchem todo o espaço por onde toda a gente quer navegar, e através dos escadotes usados alcançar. Há salas e mais salinhas sem parar. Algumas estantes ameaçam cair, mas ali permanecem, paradas no seu tempo. A madeira das estantes é velha e quase que a oiço ranger. Mas são apenas as escadas, espelhadas num espelho que nos chama para o andar da poesia.
Tento esquecer o peito palpitante e a respiração ofegante que o pensamento traz, “Quero ficar aqui.” E fotografar o que não pode ser fotografado. Decorar o que sei que nunca poderia ser decorado, sem ser explorado mais do que uma vez.
Há chegada do primeiro andar, há pessoas nas almofadas velhas e a janela branca aberta, deixa entrar a luz que revela o pó no ar. E com ele um silêncio de maravilha que não se deixa assentar. Avisto outro espelho, e quero-me fotografar. Como fundo ficariam todos os livros usados, rasgados, com capas duras ou de cabedal. E eu quero. Ficar aqui.
Perdida no meu próprio fascínio, penso em como será difícil manter todos aqueles livros imaculados ou usados em perfeita condição num local como aquele. Que parece húmido e é cavernoso.
Os meus pais esperam-me. Ainda à chuva. E por isso, olho-me uma última vez ao espelho e deparo-me com um sorriso genuíno. Acabaram-se as desconfianças, o sonho mora aqui.

Os olhos de quem vai

Nos últimos dois anos, por esta altura, vejo a célebre incerteza no rosto dos que decidem partir. Aquela que a toda à força tentamos mascarar. Estamos a uma viagem de avião da mudança. E ao contrário do que se possa pensar, todos vamos sozinhos e assustados. Da solidão amedrontados.

Os desafios começam cedo e nos dedos não cabem o que temos a perder. Mas na nossa mente vive uma força fusca que acredita ser incontável o que temos a ganhar. Entre a primeira viagem de ida e o primeiro ‘voltei’ os dias não voam, o humor não se fixa e as ilusões, ainda que pequenas, começam a ser questionadas.

Nada é preto no branco. Tudo se combina com o céu londrino e o seu tempo incerto. Estamos no centro do mundo e apesar de crescermos à força, sentimo-nos pequenos perante tanta confusão. Ainda assim, acreditamos. E vamos continuando a acreditar que um dia poderemos voltar. Que a distância vai compensar.

Os olhos de quem vai não são iguais aos de quem fica. Não albergam lágrimas. Neles não peregrina a saudade, mas levam consigo todas as outras emoções. A de pertencer, sem pertencer. A de não nos sentirmos em casa em nenhum lugar. O sentimento familiar, no desconhecido.

Como bons portugueses, temos em nós todos os sonhos do mundo e é por isso que os conseguimos conquistar. E por essa razão, os olhos de quem vai não refletem os de quem volta.

 

 

Crónicas de uma Viajante V

Nas minhas últimas viagens, começo os dias com pézinhos de lã. Evitando que os outros acordem, que as escadas ranjam. Fechando a porta devagar. Mas é na correria de um sítio para outro e de transporte em transporte, entre telemóveis e tablets, que esta crónica é escrita.

O primeiro autocarro não pára. Já passa das oito da manhã. Numa cena quase de filme, corro a ponte com uma das vistas mais bonitas de Londres. A mala rosa de arrasto. A primeira reacção é pegar no telemóvel e ligar a quem nos pode ajudar. O vento não ajuda na comunicação, os semáforos das passadeiras parecem não mudar. E assim que acabo de chegar à paragem certa, o outro autocarro acaba com o meu minuto de pânico. Rendida ao alívio, encosto-me ao banco que quase me parece abraçar. Durante meia hora, passeamos pelas ruas Londrinas.

Em Borough Market ainda restam flores caídas. Em London Bridge, temos uma vista privilegiada sob Tower Bridge. As suas bandeiras balançam sincronizadas num céu rosado e ainda a acordar. E mais uma vez acredito estar a ver toda esta cena pura e calmante num ecrã de televisão.

Na rádio passam músicas dos anos 80. Estou prestes a adormecer perante os murais de rua, as mercearias 24h, a mistura da riqueza à pobreza. Os meus olhos caem sobre todos os sem-abrigos que dormem na relva de uma pequena capela. Com o som do sino, sinto estar perante a imagem de um cemitério vivo. A triste realidade que flores não assinalam, que ninguém chora. Fecho os olhos perante a crueza do cenário. Sinto-me prestes a adormecer, a voltar a sonhar com um mundo melhor quando na rádio toca a música que tenho cantado toda a semana “I say hey/ What’s going on?”. Sorrio. E perco-me a pensar em todos os Sensates da série que acabei de ver duas semanas antes. Em como promovem a ideia de estarmos todos unidos, em qualquer parte do mundo.

Nunca perco tempo a descrever como me sinto no aeroporto. Acho desnecessário, por não o conseguir explicar. Mas no aeroporto, tudo passa a correr. Tenho a noção deste post que tenho de escrever, de um outro para a universidade. Mas decido antes estudar francês. Entretenho-me ao ponto de não querer largar as aulas virtuais para comprar água e seguir para a porta de embarque.

Entramos para o avião minutos antes do habitual. Fico feliz ao pensar que chegaremos antes da hora prevista. Mal saberia na altura que isto não viria a acontecer. Já no avião, somos informados numa intensa vaga de calor que o controlo aéreo francês se encontra lotado, não nos dando autorização para levantar voo. Penso na ironia de decidir estudar esta língua no dia em que me apetece amaldiçoá-los.

Finalmente deixamos o Londres chuvoso, para aterrar numa Lisboa de temperaturas desérticas. O aeroporto encontra-se mais que congestionado. Oiço os estrangeiros brotar largos elogios através do que vêem pela janela. Vejo os jovens, em puro encanto, tirar fotos ao estádio verde e branco. Não consigo parar de sorrir, de me encher de orgulho. Por não estar de passagem, por ser de cá. E por essa razão, desta vez ao aterrar, recuso-me a ouvir a mesma música de sempre, limitei-me a deixar tocar a que a solidão acompanhou durante semanas. ‘Todos precisamos de alguém que fique’, esta diz entre o coro infantil. Como sempre, a musica termina no momento em que o avião pára. Mas eu não sou uma dessas pessoas. Eu vou. E volto. E continuarei a voltar, até cá ficar de vez.

Mergulho

Os sete dias antes de embarcar costumam passar devagar. Tão devagar como quando estamos debaixo de água, a tentar atingir a superfície. Os setes dias antes de embarcar são os momentos de aflição. Aqueles segundos que não conseguimos contar. Aqueles milésimos que nos fazem pensar que quanto mais próximo da superfície estamos, menos tempo achamos conseguir aguentar.

É um mistério ainda por explicar como conseguimos mergulhar de cabeça antes de conhecermos o que está submerso. Um ainda maior como voltamos a mergulhar depois de vir ao de cima respirar.

Nas aulas de Escrita Criativa chamamos a este fenómeno ‘A Jornada do Herói’, que se encontra dividida em três fases. Numa primeira este transita a fundo para um novo mundo. Desconhecido, perigoso, longínquo. E toda a segunda fase permanece submersa nesse ambiente e nas suas dificuldades, na sua adaptação, no alcance do seu objetivo. Mas no terceiro e último patamar, ele volta sempre ao mundo inicial. E por lá permanece com novos conhecimentos e uma perspectiva diferente. Esse é o final pelo qual sustemos a respiração. Chegar ao local que anteriormente deixámos para o ajudar a respirar novas ideias, novos projetos. Mesmo que para isso tenhamos que resistir às ninfas, às correntes do humor, às alterações de temperatura. Mesmo que por isso tenhamos de nos habituar aos sons alterados e esganiçados, à falta de luz no fundo, à pele pálida e enrugada, à falta do grosso sal.

Apesar das inúmeras dimensões que a vida pode tomar, ‘A Jornada do Herói’ será sempre uma delas. E é por isto que as histórias que os livros nos contam podem parecer tão reais. Porque efectivamente o são, se nos permitirmos molhar.

A Verde & Branco

Escrevo pela manhã, como tantos faziam. E é após terminar a edição da Crónicas de uma Viajante III, onde falo das coincidências que regem as minhas viagens, que relembro uma outra. Porque em dia de Derby estava tudo a pensar no mesmo, cada um para seu lado, cada um pela sua cor.

É de conhecimento geral que nos arredores do aeroporto de Lisboa se encontra o estádio verde e branco. O que escapava ao meu conhecimento era a importância que este viria a ter nas minhas observações.

Cedo, e empurrada pela sorte, me apercebi de que teria uma vista melhor de Lisboa, se voasse de Londres, na ala ABC. Por coincidência aquele era também o único lado de onde o avistava.

Entusiasmavam-me os jogos da minha equipa, como qualquer adepto. Mas de futebol nada entendia. Tinha assistido a um jogo ao vivo pela primeira vez, apenas dois meses antes de partir. Conhecia os jogadores pelas cores da chuteiras, sabia talvez um, no máximo dois nomes. Distraia-me com as claques e a passagem dos aviões. Percebi porque nos fascina o futebol.

Existem agora três locais onde caio à terra e penso ‘estes momentos podem não voltar a acontecer, posso não voltar aqui’, um deles passou a ser o estádio do Sporting. Pela janela do avião tornou-se a última casa a que digo adeus, a primeira que me recebe em lágrimas.

Em poucos meses de Londrina passei a assistir a todos os jogos, a ter todas as músicas na memória. Durante 90 minutos nada mais interessava, senão aquele jogo em português. Não parecia mais que uma ilusão. Talvez por isso exista algo de mágico quando dou os primeiros passos no estádio sempre que lá volto. Talvez por isso quase chore quando nos juntamos para cantar ‘O mundo sabe que’.

São inúmeras as narrativas futebolísticas que se cosem às minhas viagens. Voltaria a Lisboa daí a 36 horas, ao acordar de madrugada para fazer o check-in engano-me nas contas e em vez de escolher a fila ABC, escolho a contrária. Lembro-me de conter as lágrimas perante as hospedeiras de bordo que me cumprimentavam. Quebrava-se uma rotina. O hábito que por mera sorte me tinha escolhido. Escolhera na mesma a fila 17. Quando levantamos voo olho para o meu tão desejado lugar, está vazio. Durante os 15 minutos antes de deixarmos território britânico, penso em pedir para me mudar. Sem saber a razão, nunca o fiz. É a meia hora de aterrar que a magia acontece, apercebo-me que algo não está certo. As minhas referências estão ao contrário. A cabeça descaída começa lentamente a levantar. Tento encontrar alguma ordem, algo familiar. É então que vejo a posição do Cristo Rei, a rota aérea foi trocada. Mesmo antes da desejada aterragem, ali estava o estádio.

No primeiro jogo com o Real Madrid lá estaria eu a voar para Londres. Ouvi apenas 15 minutos de jogo, sentada na porta de embarque. Pedi a tantos amigos que me mandassem o resultado para saber mal aterrasse… Nesse mesmo dia, levava o cachecol atado à mochila. Nessa manhã, soube que me faltava algo enquanto procurava com o olhar o que deveria levar. Os meus olhos mal lhe tocaram quando por palavras fui relembrada. Na segurança, onde ainda me apanham aos soluços por estar a partir, metem-se comigo. ‘Não a deveria deixar passar com este cachecol’. Solto uma gargalhada. Estava pronta a partir.

O cachecol permitiu que fosse identificada por um português que pernoitava no mesmo hostel que eu. O cachecol agora descansa na minha estante de livros. O único objecto que permito que destoe dos tons do quarto. O cachecol que destaca estes recortes de vida, a verde e branco.

Crónicas de uma Viajante II

Toco no vidro da já familiar janela de avião, misturando as minhas dedadas com as impressões digitais de desconhecidos. Até nestas que nos definem, somos todos iguais.
Por momentos penso impacientemente que a minha mente me prega uma rasteira e desencontro-me. Da janela do meu quarto deixo-me perder entre os traçados esbranquiçados no céu. Vejo os aviões a partir. Pelo menos três de cada vez. Toco-lhes através do vidro. Relembram-me que estou longe, mas também que posso pertencer onde estes me levarem. Desta vez não me deixo enganar, vou voltar. Esteja de que lado estiver, voa comigo a melancolia que durante o dia se perdia nos transportes públicos. De autocarro até à estação de metro de Elephant and Castle, parando em Trafalgar para recolher um livro da Waterstones, a caminho de Oxford Circus onde almoçaria. Mais tarde viria a trocar de linha em Piccadilly. Pelo menos 10 quilos levava em bagagem de mão, ignora-se tudo o que levamos dentro de nós. Pelo menos tenta-se. Demasiadas emoções para uma bagagem só. Dentro de duas horas uma despedida, dentro de 5 uma quebra na minha rotina Londrina.
É no metro a caminho de Heathrow Terminal 3 que reparo num senhor atento a tudo o que o rodeia. Escreve num pequeno caderninho cheio de datas e pequenas frases. Sei o que faz. Várias vezes me deixo trair pela tentação de fazer o mesmo. Possivelmente sorrio, sem malícia. Encostada ao vidro mesmo ao seu lado, tento decifrar a sua caligrafia sem que se aperceba. Ao tentar distrair-me concentro-me nas mãos constantemente sujas. Sei que no dia seguinte terei dores nos braços de carregar a mala em todas as escadas das diferentes estações de metro. Há três meses não sabia como iria aguentar estar fora, mas quando estamos de volta parece que passaram a voar. Parece que em Portugal o Natal se cola com a Páscoa e o Verão. Ingenuamente, e sem nos apercebermos, acreditamos que três meses não os separam. Que não nos separam.
Acabo por escrever no aeroporto, sem qualquer novidade. Aproveito o último latte de baunilha, enquanto respondo às mensagens de quem viaja sempre comigo. Oiço a música de acordo com o movimento das pessoas nas cadeiras e sinto-me finalmente em paz. Talvez a música me faça acreditar que a minha vida pertence a um plano, a um destino tão desejado que se tornará realidade. Dizem que o tempo passa a correr quando estamos em boa companhia e no aeroporto comigo certamente foge.
Algo muda assim que entro no avião. Mesmo ainda antes de entrar, acho. Das cadeiras perto da porta de embarque não oiço português, falo com a minha mãe ao telemóvel e quase verto uma lágrima ao ver um avião da TAP descolar. O céu ainda não escureceu totalmente, mas não me concentro no que está atrás do vidro que sujo com as minhas palmas. Nas colunas ouve-se constantemente a mesma mensagem da funcionária do aeroporto que minutos antes me levou a mala para o porão.
Quero descolar. Quero encostar-me a esta mesma janela. Quero ler e escrever e ouvir música, mas sinto-me irrequieta. Enquanto o chá e batatas fritas continuam a ser vendidas, as pessoas que se lembram de ir à WC levam com os meus olhares de desaprovação. E apesar de parecer mais longa que o normal, fazemos a viagem em metade do tempo previsto.
O mapa com o avião nos televisores aumenta a minha ansiedade. Será que escolhi o lugar certo? À esquerda para Londres, à direita para Lisboa de maneira a ter a melhor vista possível. Quero ver o estádio, faz parte da rotina trimestral. E finalmente, começamos a avistar Lisboa. Procuro com o olhar o Cristo Rei, que me guia através da sua posição. Descanso. Estou no lugar certo.
A senhora atrás de mim no avião chora devagar. Em silêncio. Num silêncio que eu compartilho. Fazemos parte de uma nova geração de emigrantes achados a cada país que visitamos, cujas histórias se perdem entre rotas aéreas unidas pela identidade portuguesa da saudade. Tal como compartilho a experiência do senhor que vi no metro. E que sei que escrevia sobre mim, sobre a vista, sobre quem estava na carruagem e do que falavam, como eu agora escrevo dele.
Quando aterro, mergulhada na letra da música habitual, expiro. Sinto que sustive o ar durante muito tempo e que respiro agora pela primeira. E tento não pensar se parei de respirar quando saí de Londres ou se quando para lá fui.
A minha viagem começa às onze e meia da manhã quando saio de casa. Aterro às onze da noite. Mas a viagem acaba apenas quando entro na minha outra casa. Não são mais de mil quilómetros que as separam, mas sim 14 horas de toques no vidro das janelas.

Tempo

Criei o hábito de me ligar à rádio portuguesa logo a seguir ao almoço, como se fosse uma quotidiana sexta-feira à tarde. Enquanto estudo abstraio-me das publicidades e canto baixinho. A energia das músicas relembra-me o verão e a luz do sol abrasador desenha um sorriso num rosto pálido. Encosto-me na fria cadeira de rodas de escritório, como se esta fosse o assento do carro que me escalda. Venho do aeroporto. Passo agora a ponte Vasco da Gama. Os óculos de sol descaem e avisto Lisboa a afastar-se a 90km/h. Vagarosamente, os meus olhos fecham-se com o peso de tamanha luminosidade Lusitana. Distraio-me com o som da chuva a passar a granizo, enquanto o vento uiva lamentos às minhas cortinas. Perco-me a pensar no tempo. Em como acelera dentro do carro, em como à secretária é metafórico. Mudo de estação de rádio, o jogo de futebol termina. Encosto a testa ao vidro da janela. Das nuvens só já resta a cinza habitual Londrina. Dá chuva para os próximos dias, anuncia a rádio. O sol encandeia o ecrã do portátil. Continuo a passar a limpo as notas da aula e, sem me aperceber, dirijo-me ao aeroporto.